Toda essa discussão sobre a PEC das domésticas (um simples post de celebração à Emenda Constitucional gerou comentários, alguns bem revoltados) me deu uma agonia danada e, consequentemente, vontade de retornar às memórias do que vi pelo mundo e escrever aqui por que esse tema sempre me intrigou.
Em 1997, fiz meu primeiro intercâmbio para a Terra da Rainha. Cambridge, Inglaterra. Esquema tradicional: ficar com uma host Family. Significava ter direito a um quarto, a gozar de duas refeições ao dia – menu determinado pela landlady, a dona da casa, com no máximo espaço para informar suas restrições alimentares -, zero da mordomia da classe média pernambucana, ter horário para colocar a roupa na máquina, obrigação de manter quarto limpo e organizado. Nada mais justo e deveria ser comum, correto? Pois, na mentalidade da elite, esse tipo de vivência também se inclui no pacote do investimento em educação que justifica mandar os filhos para o Exterior. “Vai ver o que é bom, ter de se virar”.
Bem, todos os filhos da classe média, espero, sobrevivem a esse estágio de sobrevivência sem empregada para guardar a roupa espalhada, forrar a cama e lavar a louça. Só que, ham!, se essa rotina continua quando regressam à terra natal, isso é outra história. Falo, sem hipocrisia nenhuma e por experiência própria. Sou aquela menininha que teve babá, muitas vezes que cuidou do pai e do tio, cozinheira que criou a filha conosco e fieis escudeiros que, sem eles, minha vida teria sido bem menos confortável e que, mais importante: ensinaram-me muita coisa, muita mesmo. (Por isso, deixo um beijo no coração das Marias que me seguraram no colo enquanto mainha trabalhava, Neide que tinha pena do quanto eu trabalhava e levava espontaneamente o café para o computador porque eu esquecia de comer, Livramento e seu tempero inesquecível, Zefinha que assistiu à primeira vez que cavalguei na fazenda e hoje ajuda a organizar a casa da praia depois das inúmeras farras e tantas outras pessoas especiais).
Somos muito mal acostumados. E no ranço da herança do açúcar isso é ainda mais latente. Daí, tanta indignação com o trabalho que os patrões terão de ter para regulamentar o trabalho das funcionárias que ajudam na criação dos filhos e na organização da casa e com os consequentes gastos extra.
Concordo que devemos cobrar contrapartidas do governo na hora que exigem esse tipo de reorganização: creches, pagamento do FGTS facilitado, acesso a modelos de contrato legal que protejam as partes envolvidas, campanha de instrução sobre como administrar a relação trabalhista, etc. Mas, sempre me vem na cabeça o rescaldo cultural por trás de tanto desconforto.
Lá atrás, enquanto isso na Terra da Rainha, eu conhecia Florence e David. Uma francesa e um holandês, que acabaram de ter Amber e já tinham Max, 4 anos de idade. Os dois tinham carreira e trabalhavam muito. Resolveram receber estudantes para inteirar a renda já que ela precisava de uma babá para ajudar com a bebezinha. Daí, conheci Maria, a babá argentina, que descolou esse job para bancar os estudos do inglês. A cena que me deu um choque de realidade: Maria comia com a gente, lia o jornal, discutia política com a patroa. Ah!
A menininha de 14 anos aqui parou para pensar. Claro que sei que Europa e América Latina são bem diferentes e as babás Marias também. Mas, eu olhava e conversava comigo mesma: “Quando um dia os trabalhadores domésticos serão tratados assim e conseguirão se posicionar diante dos patrões desse jeito?”.
A menininha voltou para Recife. E voltou a usufruir de todo o conforto da classe média.
Aos 24 anos, segundo intercâmbio. China. Ok, aqui não é nenhum exemplo de respeito às leis trabalhistas. Mas, minha ayi, que vinha duas vezes por semana, negociou de cara a quantidade de horas trabalhadas e as tarefas que eu a estava contratando para. E olhe que ela era semianalfabeta. Alguém aqui já teve tal diálogo com sua secretária doméstica?
Então, dentro desse quadro, neguinha aqui aprendeu a lavar, passar, cozinhar, cuidar da casa. Não se tornou nenhuma exímia dona-de-casa. E, longe de amar a situação por se sentir mulherzinha (num sentimento aqui de “mulheres nasceram para isso”), adorou se sentir liberta da tradição serviçal de casa.
Ainda na Ásia, lembro-me do desespero dos casais brasileiros atrás de empregadas filipinas que dormissem em casa para ter o conforto que mereciam. E alimentavam todo um comércio de headhunters que recrutavam essas profissionais para trazer para a China. E, aqui, friso: era muito comum entre brasileiros.
Por isso falo do rescaldo cultural por trás dessa “polêmica PEC”.
E por que não falar em machismo?
Oras, agora que mulherzinha e homenzinho já têm contracheque no final do mês e que ter auxiliares ficou pesado no bolso, Joãozinho, Zezinho, Toinho e todos rapazes terão que, provavelmente, dividir a criação dos filhos e a organização da casa. Ao menos que Mariazinha resolva voltar a ser dona-de-casa.
Aí, fico aguardando a quantidade de homens interessantes que surgirão para minhas filhas, sobrinhas e netas.
Já aguardo as pedras e a acusação de que sou contra casamento, família, etc. Não é nada disso. Não vejo problema nenhum em a mulher dividir a preparação do almoço, a faxina, cuidar da criançada. Só usei a palavra “dividir”. E porque acredito que construir uma família é algo bem maior que subterfúgios para manter o status quo. Inclusive, no trato das empregadas domésticas. Bom domingo!












