Primeiramente, eu preciso dizer que realizei o sonho de colocar meus pés em território indiano. Desde meu regresso da China e do Oriente Médio, acalentava o desejo de conhecer um pouco mais sobre a cultura desse integrante dos BRIC, supostamente de cultura e valores tão diferenciados em relação ao resto do mundo. Vamos por partes. Muito do que dizem é verdade. Muito é mito.
Antes, um prelúdio. Como ex-moradora da China e viajante constante pela Ásia, padrões de higiene, estética e trânsito não me assustam tanto quanto o faria a um iniciante nas bandas de lá, onde cheiros, sabores, religião e beleza diferem tanto do padrão ocidental
A água é potável, daqui você pode beber
Todo cuidado com os líquidos que irá ingerir é pouco.
Verdade
Leve sempre sua garrafinha de água mineral. Quando comprá-la fora do hotel, atenção se está lacrada. Muitos estabelecimentos reaproveitam a garrafa.Na boa, nenhuma novidade para nós, brasileiros, que sempre tomamos água em garrafa. Ou alguém aqui vai à Ilha, ao Arruda, aos Aflitos e coloca a boca no bebedouro?
Você tem fome de quê?
É preciso evitar a comida indiana a fim de não ter dor de barriga
Meio verdade. Meio mentira.
A comida indiana é realmente bem temperada e apimentada. Muita gente diz que tem dor de barriga. Confesso que experimentei as iguarias daqui com todo cuidado, de forma bem conservadora, em restaurantes bem conceituados e no hotel.
Não tive sequer cócegas. Comi muita coisa gostosa. Se você não curte pimenta, a senha é dizer REAAAAAALLY not spicy, ou seja Naaaaaaada de pimenta. Tá resolvido. É bom lembrar que, diferentemente da China que esteve fechada ao mundo por tanto tempo, os indianos são acostumados a receber estrangeiros, tiveram dominação inglesa e, portanto, mais aptos a entender que nem todo firangi é acostumado ao curry, cominho e demais temperos.
Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada
Hospedagem na Índia é um problema.
Verdade.
Ou é muito caro. Ou muito barato. É certo que vem surgindo novas opções mid-price, mas bem distantes das redes Holiday Inn e Ibis. Em Mumbai, aceitei a sugestão do meu distribuidor e reservei o Couryard Marriot Mumbai. A diária estava acima do meu budget (custou-me USD 190, bem acima da média dos demais hotéis), mas compensou pela localização – perto do aeroporto e dos principais centros.
Já em Nova Dheli, quis me aventurar pelas dicas do Trip Advisor e economizar. Fiquei no Krishna Hotel, com administração local. Diária de USD 60. Bem, tudo bem quando termina bem. O hotel é seguro, desde que você não se aventure a sair e tomar um táxi sozinha. Dentro do estabelecimento, ninguém vai te incomodar. Os mensageiros lhe ajudam a chamar a condução e a comprar bebida, remédio, comida fora para que você não se exponha. O quarto é limpo, no entanto, sem mini-bar e WIFI, o que lhe obriga a usar o cybercafé no lobby. Nada demais até aí. Só recomendo levar suas próprias toalhas. Deu um nojinho.
Abaixo, você vê a paisagem e o visu da rua. Um tanto assustador :p

A rua em que meu hotel se localizava parecia um beco do bairro de São José. Não se assuste. Alguns dos mais famosos hoteis também ficam aí
Pelo engarrafamento eu vejo o mundo, Cheio de pessoas e sinais
O trânsito na Índia é complicado
Verdade, com ressalvas
O trânsito daqui é uma atração à parte. Como eu já disse, quem se acostuma com a Ásia, não vai se assustar tanto. Mas, é, de fato, algo interessante. Não vi ônibus lotado. De fato, o sistema aqui parece ser bastante eficiente, a despeito dos engarrafamentos quilométricos. Porém, com a ajuda dos… TUC-TUCs. Essas motos com carroceria acoplada dão uma ajuda e tanto. Não posso dizer que são a coisa mais segura do mundo. Mas, de alguma forma, isso aqui é um caos organizado. Não vi uma colisão sequer, ao contrário do que vejo nas ruas do Brasil todos os dias. Eu REALMENTE recomendo um passeio neles.
Os táxis locais também são interessantes. As malas vão amarradas no teto. O problema é a falta de arcondicionado e o perfume peculiar dos motoristas (para não dizer sovaqueira). Se não quiser se aventurar, no worries. É só chamar os táxis ocidentais, com arcondicionado e sem perfume étnico. Eu disse. Os indianos sabem que o resto do mundo se comporta de outra forma e não vêem problema nisso.
No mais, segure a onda com manobras radicais e buzinaço. Os carros trazem placas: Please, horn. Ou seja, por favor, buzinem. Em contradição, o governo tenta educar o povo e evitar a poluição sonora. Bem, acho que vai levar séculos até que interiorizem isso. Ou uma multa bem pesada.
Só não se perca ao entrar no meu Infinito Particular
Vamos combinar uma coisa, certo? Quem mora no Brasil não tem o direito de achar ruim sujeira na rua, falta de tratamento de esgoto, barulho e achar uma favela junto de um prédio luxuoso. Aqui, a diferença é que é tudo potencializado. O gap é bem mais amplo. Mas, por outro lado, nada de violência. As pessoas andam nas ruas tarde da noite. Com bolsa, relógio. Óbvio, sempre é bom não se expor muito quando se é estrangeiro. Mas, nem de longe vi aqui o medo que no Brasil é tão comum.
No mais, é se deixar levar pelas cores dos sáris – lindos, lindos, lindos. As indianas, das mais ricas à mais pobres, usam a roupas étnicas nas cores mais vivas, com os cabelos cobertos por flores, os braços cheios de jóias. Bem mais divertido do que ver o pretume do jeans nas paradas de ônibus daqui.
Pela diversidade da população. Aqui tem de tudo – outra surpresa – indianos cinza, marrom-cinza, de olho puxado, brancos. Muita gente bonita nas discos, bares.
Pela religião deles – é comum se deparar com templos, oferendas aos deuses. Acho de uma riqueza única ver como esse povo se desenvolve e mantém as tradições. Tô nem aí para quem acha que só quem é ateu é mais inteligente. Aliás, a doçura desse povo é algo que me faz me sentir bem melhor do que na China, onde a lei do mais forte ganha.
A condição da mulher aqui – considerando as da religião híndi – é bem melhor do que no Oriente Médio. Elas trabalham, estudam, saem sós às ruas. Tem balada, sim. Elas bebem, dançam hip-hop, Lady Gaga, ficam com os paquerinhas. Aliás, está começando a ser comum ver beijinhos, mãos dadas em público. O casamento arranjado continua acontecendo, porém o divórcio é também comum.
A Marie Claire indiana deixa nada a desejar às do Brasil. Matérias sobre sexo, divórcio, moda. Tudo. As propagandas também. Oras, estamos falando de um país governado por uma mulher e bem antes de termos a nossa Dilma, eles já tiveram a poderosa Indhira Gandhi. Só um aviso: estender a mão a um homem, só se ele o fizer primeiro. Contato físico só entre namorados, pais e filhos.
E eu acho lindo, lindo que elas queiram usar jeans, às vezes, mas mantenham a tradição dos casamentos, com seus trajes e vários dias de festa.
Krishna, Harre, harre
As castas ainda existem e são um problema para a sociedade
Verdade
Os dhálits estão lá, nos lixões, dormindo nas ruas, limpando as calçadas. No entanto, há uma consciência ampla de que eles precisam ser respeitados. Já há leis que proíbem a humilhação contra eles. Nas grandes cidades, pode-se notar isso. No entanto, os próprios indianos me confirmam que no Interior, nas vilas, isso é um problema a ser atacado.
A Marie Claire traz reportagens sobre os problemas que os casamentos entre diferentes castas trazem – torturas nos pais do cônjuge da casta inferior, abandono, humilhações. Mas, já há na Justiça local respaldo para punir quem não respeita os direitos individuais de cada humano, independente de sua origem.
No mais, posso dizer que achei o máximo ver a população híndi e muçulmana convivendo lado a lado. Sem falar dos sirkh – aquele pessoal que usa turbante e não corta o cabelo. A diferença entre eles e os híndi é que, em vez de deuses, eles acreditam em gurus, que ainda estão vivos. Cada um no seu quadrado. E ainda ver que há várias escolas cristãs, freiras passeando, nesse canto do mundo tão antigo, rico e apaixonante.
Pode quebrar o pescocinho para o lado
Sim, eles balançam a cabeça como se fosse um “não”, quando na verdade querem dizer “sim”. Sim, eles dizem tchik tchik quando concordam com algo, assim como na novela
Festa no gueto, pode vir, pode chegar, espalhar para o mundo inteiro, vamo ver no que é que dar
Aqui, tem boate, sim, balada, sim, diversão ocidental, sim. Indianos e firangis curtem a balada juntos. Toca-se muito hip hop, disco, pop e música de Bollywood remixada. E aí eles deitam e rolam fazendo um monte de dancinha engraçada. E isso nada mais é que o funk deles. Porque as letras dizem algo como: “Vou te morder”. “Você é a escolhida, vai ficar comigo”. Ok, bem mais elitizado, mas há o risco de a tradução não ter sido tão ao pé da letra.
Uma cena engraçada: eu vi um sirkh dançando. O turbante balançava e parecia que ele estava dançando “com a lata na cabeça”.
Um detalhe: a festa acaba à 1h. Todo mundo para casa. Quem não tomou a sua Kingfisher ou shot de tequila, vacilou. E nenhum resquício de consumo de drogas. Tudo muito saudável até onde vi.
Gentileza gera gentileza
Os indianos são doces. Sempre que falam com você, juntam as mãos como em reza e saúdam com: Namastê! Quer dizer algo como: Deus esteja com você.
Olham para você, mas nada agressivo como muitos árabes – com cara de fome ou os chineses – de gozação, estranhamento.
São de longe o povo mais doce que já conheci.
Entendo por que muita gente vem e não quer voltar.
E resumo: se quem não gosta de samba, bom do juízo não é ou tem problema no pé, quem não admira isso aqui, deve ter algum bloqueio no coração.


















