Quando uma simples PEC suscita um passado injusto e um presente de privilégios

Uma discussão sobre herança cultural, machismo, sociedade mais justa e homens mais interessantes

Uma discussão sobre herança cultural, machismo, sociedade mais justa e homens mais interessantes


Toda essa discussão sobre a PEC das domésticas (um simples post de celebração à Emenda Constitucional gerou comentários, alguns bem revoltados) me deu uma agonia danada e, consequentemente, vontade de retornar às memórias do que vi pelo mundo e escrever aqui por que esse tema sempre me intrigou.

Em 1997, fiz meu primeiro intercâmbio para a Terra da Rainha. Cambridge, Inglaterra. Esquema tradicional: ficar com uma host Family. Significava ter direito a um quarto, a gozar de duas refeições ao dia – menu determinado pela landlady, a dona da casa, com no máximo espaço para informar suas restrições alimentares -, zero da mordomia da classe média pernambucana, ter horário para colocar a roupa na máquina, obrigação de manter quarto limpo e organizado. Nada mais justo e deveria ser comum, correto? Pois, na mentalidade da elite, esse tipo de vivência também se inclui no pacote do investimento em educação que justifica mandar os filhos para o Exterior. “Vai ver o que é bom, ter de se virar”.

Bem, todos os filhos da classe média, espero, sobrevivem a esse estágio de sobrevivência sem empregada para guardar a roupa espalhada, forrar a cama e lavar a louça. Só que, ham!, se essa rotina continua quando regressam à terra natal, isso é outra história. Falo, sem hipocrisia nenhuma e por experiência própria. Sou aquela menininha que teve babá, muitas vezes que cuidou do pai e do tio, cozinheira que criou a filha conosco e fieis escudeiros que, sem eles, minha vida teria sido bem menos confortável e que, mais importante: ensinaram-me muita coisa, muita mesmo. (Por isso, deixo um beijo no coração das Marias que me seguraram no colo enquanto mainha trabalhava, Neide que tinha pena do quanto eu trabalhava e levava espontaneamente o café para o computador porque eu esquecia de comer, Livramento e seu tempero inesquecível, Zefinha que assistiu à primeira vez que cavalguei na fazenda e hoje ajuda a organizar a casa da praia depois das inúmeras farras e tantas outras pessoas especiais).

Somos muito mal acostumados. E no ranço da herança do açúcar isso é ainda mais latente. Daí, tanta indignação com o trabalho que os patrões terão de ter para regulamentar o trabalho das funcionárias que ajudam na criação dos filhos e na organização da casa e com os consequentes gastos extra.

Concordo que devemos cobrar contrapartidas do governo na hora que exigem esse tipo de reorganização: creches, pagamento do FGTS facilitado, acesso a modelos de contrato legal que protejam as partes envolvidas, campanha de instrução sobre como administrar a relação trabalhista, etc. Mas, sempre me vem na cabeça o rescaldo cultural por trás de tanto desconforto.

Lá atrás, enquanto isso na Terra da Rainha, eu conhecia Florence e David. Uma francesa e um holandês, que acabaram de ter Amber e já tinham Max, 4 anos de idade. Os dois tinham carreira e trabalhavam muito. Resolveram receber estudantes para inteirar a renda já que ela precisava de uma babá para ajudar com a bebezinha. Daí, conheci Maria, a babá argentina, que descolou esse job para bancar os estudos do inglês. A cena que me deu um choque de realidade: Maria comia com a gente, lia o jornal, discutia política com a patroa. Ah!

A menininha de 14 anos aqui parou para pensar. Claro que sei que Europa e América Latina são bem diferentes e as babás Marias também. Mas, eu olhava e conversava comigo mesma: “Quando um dia os trabalhadores domésticos serão tratados assim e conseguirão se posicionar diante dos patrões desse jeito?”.

A menininha voltou para Recife. E voltou a usufruir de todo o conforto da classe média.

Aos 24 anos, segundo intercâmbio. China. Ok, aqui não é nenhum exemplo de respeito às leis trabalhistas. Mas, minha ayi, que vinha duas vezes por semana, negociou de cara a quantidade de horas trabalhadas e as tarefas que eu a estava contratando para. E olhe que ela era semianalfabeta. Alguém aqui já teve tal diálogo com sua secretária doméstica?

Então, dentro desse quadro, neguinha aqui aprendeu a lavar, passar, cozinhar, cuidar da casa. Não se tornou nenhuma exímia dona-de-casa. E, longe de amar a situação por se sentir mulherzinha (num sentimento aqui de “mulheres nasceram para isso”), adorou se sentir liberta da tradição serviçal de casa.

Ainda na Ásia, lembro-me do desespero dos casais brasileiros atrás de empregadas filipinas que dormissem em casa para ter o conforto que mereciam. E alimentavam todo um comércio de headhunters que recrutavam essas profissionais para trazer para a China. E, aqui, friso: era muito comum entre brasileiros.

Por isso falo do rescaldo cultural por trás dessa “polêmica PEC”.

E por que não falar em machismo?

Oras, agora que mulherzinha e homenzinho já têm contracheque no final do mês e que ter auxiliares ficou pesado no bolso, Joãozinho, Zezinho, Toinho e todos rapazes terão que, provavelmente, dividir a criação dos filhos e a organização da casa. Ao menos que Mariazinha resolva voltar a ser dona-de-casa.

Aí, fico aguardando a quantidade de homens interessantes que surgirão para minhas filhas, sobrinhas e netas.
Já aguardo as pedras e a acusação de que sou contra casamento, família, etc. Não é nada disso. Não vejo problema nenhum em a mulher dividir a preparação do almoço, a faxina, cuidar da criançada. Só usei a palavra “dividir”. E porque acredito que construir uma família é algo bem maior que subterfúgios para manter o status quo. Inclusive, no trato das empregadas domésticas. Bom domingo!

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Londres, 15 anos depois, cinza, charmosa e desconfiada

Os ônibus estão da mesma cor, mas com o motorista blindado...

Os ônibus estão da mesma cor, mas com o motorista blindado…

O charme discreto continua nas ruas, mas rodeado de câmeras e avisos para se tomar cuidado

O charme discreto continua nas ruas, mas rodeado de câmeras e avisos para se tomar cuidado

15 anos depois muita coisa mudou ...

15 anos depois muita coisa mudou …

E não fui só eu que não saio mais de casa sem maquiagem :p

E não fui só eu que não saio mais de casa sem maquiagem :p

Exatos 15 anos depois, regressei a Londres, terra que viveu em meus sonhos desde o dia em que aprendi a dizer “apple”, “bus”, “red”, “yellow”. O ônibus vermelho, as cabines telefônicas, o underground – não o subway – permeavam o idílio da liberdade, independência e desenvolvimento que uma terra pode oferecer a um cidadão que pague suas contas em dia.

A Inglaterra não é a mesma da época do meu kidergarten da Cultura Inglesa, mas o mundo também não mais o mesmo. Melhorou? Piorou? Bem, tive um reencontro com o United Kingdom um tanto amargurado. Apesar, de ter o charme do regresso a uma terra com olhos mais maduros, lembrando os sonhos de adolescência no intercâmbio.

O “amargor” aqui não diz respeito a um balanço de frustrações e conquistas. Mas, de encontrar uma Londres tensa, desconfiada, insegura. Não há sinais da decadência da crise econômica europeia, mas as cicatrizes de um mundo dividido, segregado e que, cujas consequentes decisões políticas deixam reféns e mais reféns do medo.

Londres continua com o foggy e com o ar blasé do sorriso de canto de boca ao final de uma piada que só o inglês sabe contar. Só que não há mais tantos tiozinhos grisalhos atendendo nos guichês do metrô, tampouco no balcão das lojas. Bem, há 15 anos, a imigração já era uma realidade. Mas, agora, já mudou a paisagem. No final de semana em que eu estive lá, havia justamente a celebração de um feriado indiano. Turbantes, sáris invadiram a praça em frente ao Victoria and Albert Hall Museum. Estava bonito. Colorido. E numa animação nada típica dos ingleses. Nada contra ;)

O que mais me chocou foi o imenso Big Brother de câmeras, policiais, revistas que nunca havia encontrado na Europa. Em nenhum país. No meu albergue, para entrar, era preciso mostrar documentos e a carteirinha de hóspede. Enquanto em Berlim se deixava o dinheiro em cima da mesa e nada acontecia, na capital inglesa um shampoo esquecido no banheiro não durou 15 minutos para desaparecer. Se a “noia” brasileira de trancar os lockers com a bagagem era motivo de zoação do australiano e do canadense, em Londres, a recomendação era “passa a chave sem pena”. E olhe que eu estava hospedada no “the most opiniated hostel in London”, o Generator, que requer reservas com bem muita antecedência. E não é pela competitividade do preço.

As placas nos corredores “Ao notar qualquer atitude suspeita, denuncie” me deixaram angustiada e, daí, meu amargor. Não era a Londres que me inspirava possibilidades do passado. (Aliás, fica a dica: na próxima ida a Londres, optarei por um “Bed and Breakfast” – hotéis com café-da-manhã, mais simples, porém, mais confortáveis).

Londres também foi marcada por coisas boas: a rota “Amy Winehouse” em Camdentown e todos os shots de Jack Daniel’s, BrickLane e seus artistas descolex, a Tate, enfim, a felicidade de respirar arte, liberdade de comportamento e música. O prazer imenso de encontrar amigos pernambucanos e um português. E também os contrastes de bengalas, ternos, pubs e táxis pretos.

Porém, contextualizando onde começou o gosto amargo dessa nova Londres…

Marcando a passagem Munich – Londres usei o mesmo modelo mental que norteia a maioria dos mochilões: preço e logística. Fui lá no site e comprei a passagem low cost da British Airways. Sim, foi legal voar pela primeira vez na vida com uma piloto. Ah! As mulheres da Inglaterra.. Margareths, Elisabeths… Mas, não foi nada legal descobrir que havíamos perdido o último metrô partindo de Heathrow.

Bem, se não queríamos pagar EU 100,00 de táxi, vamos para o Night Bus, que percorre toda a periferia até o Centro – é vermelhinho, é charmoso, mas nada seguro. Entrei com Zarhi, minha companheira de aventuras, e comecei a rezar. Já estava me sentindo agoniada ao ver que o motorista do ônibus agora anda protegido por um vidro contra bala. Isso não existia, mesmo quando o IRA era o maior temor.

Percebi dois homenzinhos barbudos e fardados. Muçulmanos. Eram funcionários da prefeitura entregando questionários aos passageiros para ajudar a descobrir quem é o público que toma este transporte. Época de Olimpíadas. Puxei assunto e soltei um “assalamu aleikum”. Amizade na certa.

Os passageiros foram entrando. Um pessoal nada “friendly”. Um deles se aproximou com a mão por dentro da calça. Já esperava a faca e o assalto. Eis que nossos amigos habibs intervieram e bloquearam o caminho, forçando o “mala” a descer na parada seguinte. Bem, esse foi o “welcome back, Ana” que ouvi. Novos tempos. Londres mais desconfiada e cinza.

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Uma ode realista a SP!

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Questionar o status quo é sempre um exercício de lucidez

Se existe amor em SP, eu não sei. Mas, que a cidade me dá presentes, isso dá. Nessa terra cinza, poluída, barulhenta e cheia de trânsito, há sonhos realizados, desejos conquistados, em um mundo de ofertas e possibilidades. Ainda estou agradecendo a possibilidade de ter conferido a exposição do chinês Ai Weiwei, na semana passada.

O artista contemporâneo mais influente e provocador do momento trouxe a sua provocação à sociedade chinesa, assim como à falta de liberdade de expressão na Terra de Mao ao Museu da Imagem e Som. Nela, ele mostra fotos de chineses consumistas e questiona: sim, é possível sonhar com uma BMW, com uma Louis Vuitton, mas como é aceitável se há tanta coisa mais importante para mudar e, no caso dele, a situação política da China?

Pois é, pegando o gancho para falar de SP, a cidade traz os prós e contras da pujança do dinheiro. Os prós: oportunidades – talentos arranjam espaço, trabalhos, assim, são menos torturantes e o ciclo do progresso é virtuoso. Os contras – gente vazia, que só enxerga o concreto do consumo. Mas, ainda assim, há escolha. E escolha é sempre bom.

Para encerrar o final de semana, uma chuvinha e um sambinha. Na esquina, uma briga de trânsito em pleno domingo. Como é genuíno gostar de algo com seus prós e contras. E a vida segue. São Paulo, até breve!

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Cias aéreas – ponha a boca no trombone ou esteja pronto para o carnaval fantasiado de palhaço

Nariz de Palhaço. Não era carnaval, tampouco dia de bloco do Acho é Pouco e a Avianca (de novo!) me fez me sentir uma babaca, como qualquer consumidor lesado se sentiria – Para quem não lembra, minha bolsa Louis Vuitton foi roubada de dentro da minha mala com cadeado, durante um voo São Paulo – Recife.

Desta vez, foi durante o pré-embarque de um voo Rio de Janeiro – Salvador. A partida estava marcada para as 20:30. Peguei um táxi rumo ao Galeão de coração partido (Dar tchau à Cidade Maravilhosa é sempre tão difícil…) e ainda sem um último chope no Leblon,

Cheguei em cima da hora do check in. Os funcionários da Avianca apressando. Foi só despachar a mala, a moça do balcão avisou: “Atrasado, sem previsão”.  Busquei a loja da companhia: “Senhora, daremos um voucher de alimentação. Só podemos lhe realocar em outro voo após a confirmação de 4 horas de atraso”.

Após meu “delicioso” lanche, aparece no painel: “Atraso mínimo 4 horas”. Ok, conforme legislação da Anac, hora de cobrar todas as compensações – táxi, acomodação, comunicação.

Cobrei acomodação no aeroporto. Afinal, assistir a “O Canto da Sereia” deitada e com um banho era o mínimo. Resposta do gerente: “Não há hotel no aeroporto”. Como boa pernambucana briguenta, foi investigar. Achei o hotel do Galeão. “Recepção, há vagas? Sim, senhora”. Voltei à loja e perguntei se era hábito da Avianca mentir aos passageiros. Pronto! Hotel, banho, novela e uma volta 5 horas depois menos torturantes.

Com a Azul, foi a mesma coisa. Voo Salvador – São Paulo. Aeronave quebra. “Senhores, vamos realoca-los num voo com conexão em Aracaju, partindo às 4h e chegando às 10h em SP”. Nem a pau. Colei na loja e disse que não admitia pernoitar no aeroporto.

Pesquisei pela Internet do celular e achei um voo da Gol. Quando viram que eu não desistiria, me colocaram em tal voo e segui para SP na hora seguinte. Ou seja, quem tem boca pode até não ir a Roma, mas que tem mais conforto, ah, tem sim!

 

 

 

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Adeus a Bibi e quando descobrimo​s que o sabonete vale a pena

 Faz muito tempo que não compartilho nada nesse blog. Mas, ontem, recebi a notícia de que Gabi Veiga Zonari, mais conhecida como Bibi, foi encontrada morta. Ela dançou jazz comigo na Perfformance. Depois, nos encontramos na Folha de Pernambuco. Na época da China, acompanhávamos a vida uma da outra pelo facebook, conversávamos, ela comentava sobre meu blog, eu, sobre as fotos dela, que havia se tornado fotógrafa profissional. Era uma companhia virtual constante na minha vida. Sempre com comentários doces e de apoio. Mais do que isso, quando me lembro da infância, ela está sempre presente. Apesar de não ter sido amiga do Santa Maria, vizinha, ou o que seja. Acho que ela me marcou pela simplicidade e alegria, por como sempre tratava a todos bem. Como um dia fiquei doente, faltei a aula de dança e ela veio me ensinar os passos que deixei de aprender. Daí, entendi que a gente pode marcar a vida das pessoas sem nem saber. Tenho a certeza que Bibi nem sabe o quanto valorizei essa iniciativa dela.

 
Há uns 3 anos, não a via. Mas, pelas redes sociais, torcia por ver que ela havia se tornado bailarina do Bolshoi, dava aulas para crianças, então havia conquistado seu sonho de infância: viver da dança. Estava morando em São Paulo, com um namorado novo, cheia de alunas que a amavam. Bibi achou que a vida estava pesada demais. Fiquei sem ar. Ela tinha muita amor naquele coração. E as fotos do face mostravam uma vida que estava pulsando. No último post dela, uma oração às vítimas de Santa Maria. Não adianta julgar. Ponto. Que ela seja abraçada por Deus e caminhe para um caminho de luz.
 
Gostaria que  vocês lessem o texto abaixo. É um dos mais lindos que já li. Fala em juntar os caquinhos, quando a vida nos quebra. Que tem gente que acha que o nosso barco é de aço, não de papel e insiste em nos magoar. Mas, e daí? Vale a pena sempre usar o superbonder da esperança e colar caco por caco. Que de cada experiência, aprendamos que os outros podem ter barcos de papel e não temos o direito de afundá-los. E que recomeçar vale a pena “pelo sabonete” – a esperança de que podemos recomeçar, mesmo que seja de algumas migalhas, que podem virar uma montanha. Por Eliane Brum.
 

 

A menina quebrada

 

Uma carta para Catarina, que descobriu que até as crianças quebram

Era uma festa. Comemorávamos a vinda de um bebê que ainda morava na barriga  da mãe. Eu havia acabado de segurá-la para que ela passasse a pequena mão na  água da fonte do jardim. Ela tentava colocar o dedo gorducho no buraco para que  a água se espalhasse, como tinha visto uma criança mais velha fazer. Parecia  encantada com a possibilidade de controlar a água. Tem 1 ano e oito meses,  cabelos cacheados que lhe dão uma aparência de anjo barroco e uns olhos  arregalados. Com olheiras, Catarina é um bebê com olheiras, embora durma bem e  muito. De repente, ela enrijeceu o corpo e deu um grito: “A menina…. A  menina…. Quebrou”. 

Era um grito de horror. O primeiro que eu ouvia dela. Animação, manha, dor  física, tudo isso eu já tinha ouvido de sua boca bonita. Aquele era um grito  diferente. Não parecia um tom que se pudesse esperar de alguém que ainda  precisava se esforçar para falar frases completas. Catarina estava aterrorizada. “A menina… A menina…” Ela continuava repetindo. Olhei para os lados e  demorei um pouco a enxergar o que ela tinha visto em meio à tanta gente. Uma  garota, de uns 10, 12 anos, talvez, com uma perna engessada. “Quebrou…” Catarina repetia. “A menina… quebrou.”

Ela não olhava para mim, como costuma fazer quando espera que eu esclareça  alguma novidade do mundo. Era mais uma denúncia. Pelo resto da festa, ela gritou  a mesma frase, no mesmo tom aterrorizado, sempre que a menina quebrada passava  por perto. Nos aproximamos da garota, para que Catarina pudesse ver que ela  parecia bem, e que os amigos se divertiam escrevendo e desenhando coisas no  gesso, mas nada parecia diminuir o seu horror. Os adultos próximos tentaram  explicar a ela que era algo passageiro. Mas ela não acreditava. Naquele sábado  de janeiro Catarina descobriu que as pessoas quebravam. 

Eu a peguei, olhei bem para ela, olho no olho, e tentei usar minha suposta  credibilidade de madrinha: “A menina caiu, a perna quebrou, agora a perna está  colando, e depois ela vai voltar a ser como antes”. Catarina me olhou com os  olhos escancarados, e eu tive a certeza de que ela não acreditava. Ficamos nos  encarando, em silêncio, e ela deve ter visto um pouco de vergonha no assoalho  dos meus olhos. Era a primeira vez que eu mentia pra ela. E dali em diante, ela  talvez intuísse, as mentiras não cessariam. Naquela noite, depois da festa, fui  dormir envergonhada. 

O que eu poderia dizer a você, Catarina? A verdade? A verdade você já sabia,  você tinha acabado de descobrir. As pessoas quebram. Até as meninas quebram. E,  se as meninas quebram, você também pode quebrar. E vai, Catarina. Vai quebrar.  Talvez não a perna, mas outras partes de você. Membros invisíveis podem fraturar  em tantos pedaços quanto uma perna ou um braço. E doer muito mais. E doem mais  quando são outros que quebram você, às vezes pelas suas costas, em outras  fazendo um afago, em geral contando mentiras ou inventando verdades. Gente cheia  de medo, Catarina, que tem tanto pavor de quebrar, que quebram outros para  manter a ilusão de que são indestrutíveis e podem controlar o curso da vida. E  dão nomes mais palatáveis para a inveja e para o ódio que os queima. Mas à  noite, Catarina, à noite, eles sabem.

E, Catarina, você tem toda a razão de duvidar. Depois de quebrar, nunca mais  voltamos a ser como antes. Haverá sempre uma marca que será tão você quanto o  tanto de você que ainda não quebrou. Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos  e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a  possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é  mais difícil do que aprender a andar e a falar. Isso é mais difícil do que  qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais  difícil do que qualquer outra coisa que você fará. 

Existe gente, Catarina, que não consegue dar sentido, ou acha que os farelos  de sentido que consegue escavar das pedras são insuficientes para justificar uma  vida humana, e quebra. Quebra por inteiro. Estes você precisa respeitar, porque  sofrem de delicadeza. E existe gente, Catarina, que só é capaz de dar um sentido  bem pequenino, um sentido de papel, que pode ser derrubado mesmo com uma brisa.  E essa brisa, Catarina, não pode ser soprada pela sua boca. Ser forte, Catarina,  não é quebrar os outros, mas saber-se quebrado. É ser capaz de cuidar de seus  barcos de papel – e também dos barcos dos outros – não como uma criança que os  imagina poderosos, de aço. Mas sabendo que são de papel e que podem afundar de  repente.

Não, acho que eu não poderia ter dito isso a você, Catarina. Não naquela  noite, não agora. Ao lhe assegurar, cheia de autoridade de adulto, que tudo  estava bem com a menina quebrada, com qualquer e com todas as meninas quebradas,  o que eu dei a você foi um vislumbre da minha abissal fragilidade. Esta,  Catarina, é uma verdade entre as tantas mentiras que lhe contei, ao tentar fazer  com que acreditasse que eu seria capaz de proteger você. Vai chegar um momento,  se é que já não houve, em que você vai olhar para todos nós, seus pais, seus “dindos”, seus avós e tios, e vai perceber que nós todos vivemos em cacos. E eu  espero que você possa nos amar mais por isso. 

Essa conversa, Catarina, está apenas adiada. Talvez, daqui a alguns anos,  você precise me perguntar como se faz para viver quebrada. Ou por que vale a  pena viver, mesmo se sabendo quebrada. E eu vou lhe contar uma história. Ela  aconteceu alguns dias depois daquela festa em que você descobriu que até as  meninas quebram. Nós estávamos na fila do caixa do supermercado perto de casa,  com uma cesta cheia de compras, e havia um homem atrás de nós. Era um homem  vestido com roupas velhas e sujas, parte delas quase farrapos. E ele cheirava  mal. Poderia ser alguém que dorme na rua, ou alguém que se perdeu na rua por uns  tempos. Ficamos com medo de que o segurança do supermercado tentasse tirá-lo  dali, ou que a caixa o tratasse com rispidez, ou que as outras pessoas na fila  começassem a demonstrar seu desconforto, como sabemos que acontece e que jamais  poderia acontecer. Enquanto pensávamos nisso, ele nos abordou. E pediu, com toda  a educação, mas com os olhos dolorosamente baixos: “Por favor, será que eu  poderia passar na frente, porque tenho pouca coisa?”. 

Quando lhe demos passagem, vimos que o homem não tinha pouca coisa. Ele só  tinha uma. Sabe o que era, Catarina? 

Um sabonete. Era o que havia entre as mãos de unhas compridas e sujas, junto  com algumas moedas e notas amassadas, como em geral são as notas que valem  pouco. Aquele homem, que parecia ter perdido quase tudo, aquele homem talvez  ainda mais quebrado que a maioria, porque tinha perdido também a possibilidade  de esconder suas fraturas, o que ele fez? Quando conseguiu juntar uns trocados,  o que ele escolheu comprar? Um sabonete.

Catarina, talvez um dia, daqui a alguns anos, você volte a me olhar nos olhos  e a dizer: “A menina… quebrou”. Ou: “Eu… quebrei”. E talvez você me pergunte  como continuar ou por que continuar, mesmo quebrada. E eu vou poder lhe dizer,  Catarina, pelo menos uma verdade: “Por causa do sabonete”.

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Fim do mundo? Ainda não! To chamando as crianças para jantar, como diz Otto

Bem-vindo ao misticismo!

Bem-vindo ao misticismo!

Em clima de expectativa de que o mundo vai acabar, leio a notícia de que legiões de místicos estão indo para Alto Paraíso. Essa cidade goiana localizada na Chapada dos Veadeiros, Centro-Oeste do Brasil, é conhecida por ter, simplesmente, uma pista para receber espaçonaves.

Nos idos de 2007, primeiras férias pós anos de estágio e um ano de carteira assinada, antecipando minha ida à China, tirei um sabático em terras desconhecidas – um encontro comigo mesma numa terra vermelha. Vermelho, vermelhão. O solo do coração do Brasil é escuro, o céu, um deslumbre. Sotaques, cheiros, temperos, músicas, tudo diferente e até inexplorado. Delícia!

Alto Paraíso fica a 270 km a Noroeste de Brasília, por uma estrada esburacada ( e eu achava que o dinheiro da soja de Goiás garantiria uma viagem tranquila!) e repleta de histórias. Vamos inverter a ordem de prioridades (lead inverso)?

No meio do caminho, tem a Serra da Baleia. Uma montanha com esse formato. No sopé, existe uma barraquinha discreta. Lá, um fazendeiro viúvo prepara a “matulada”, uma mistura de três tipos de carne, com um tempero secreto todo especial. O “chef” é rico, mas usa essa barraquinha com ponto de encontro do pessoal da estrada e usa como uma terapia. Ele é o Forrest Gump do Cerrado. Massa! Conta cada história… e com uma retórica!

 

A Serra da Baleia sinaliza que estamos no caminho certo para Alto Paraíso

A Serra da Baleia sinaliza que estamos no caminho certo para Alto Paraíso

A Chapada é linda, cheia de focos de mineração, pode chamar um guia que é pago pela prefeitura. Só não confie que haverá um jipe para te resgatar em caso de emergência. Eu, que tenho um joelho levemente sequelado, chamei pela emergência e nada! Sobrou-me um galho para muleta. E vamos que vamos, porque as cachoeiras são lindas!

No centro da cidade, milhares de pousadas místicas. Sim, místicas. Elas possuem cristais, salas gigantes de yoga, meditação, massagem, tarólogos e, pasmem, é proibido usar celular e a cozinha não tem microondas. Simplesmente, porque os ETs não gostam. Eu insisti. Meu cel sumiu misteriosamente. Prefiro considerar que caiu na cachoeira!

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Bem, vamos aos ETs…

Reza a lenda, que um prefeito visionário achava que no Paralelo 14, onde está localizada a cidade, existiria um polo de desenvolvimento e, para tal, seria preciso um aeroporto. O tal foi construído. Mas, uma série de tragédias – supostamente, os filhos dele teriam morrido em um acidente aéreo – atrapalhou o projeto. Daí, a comunidade entendeu que ali seria uma pista para aterrissagem de espaçonaves de ETs.

Sendo isso ou não, posso dizer que é o pôr-do-sol mais lindo da minha vida. Laranja,vermelho, 50 tons de intensidade. E com tucanos em rasante.

Bem, o mundo não pode acabar. Mainha ainda quer que eu vá mais longe.

Um 2013 encorajador para mudanças! Que venham os tucanos do desconhecido :) Eu nasci descalça, pra que tanta pergunta, já dizia Marcia Castro! Só sei que vale a pena.

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O indiano, a felicidade, a bênção da Bahia

Quando se escolhe a felicidade como remuneração…

Sim, meu blog está defasado. Não estão aqui os posts sobre a vida em Carpina (cidade da Zona da Mata pernambucana onde morei por dois anos), a viagem para Munich (e o reencontro com o amigo indiano brâmane mega hiper super blaster maravilhoso), a Londres perigosa e desconfiada revisitada, mais Paris, sempre Paris. Mas, abro espaço para falar de uma coisa assim simples: vida, felicidade, essência.

Não faz tempo li sobre FIB – Felicidade Interna Bruta. Concordemos, já é um nome bem mais bonito que PIB – Produto Interno Bruto. E o que é felicidade?

Eram 14h quando recebi a ligação do meu então namorado encerrando a relação. Não preciso dizer que fiquei triste. Sentei e mandei um whatsupp (mensagem enviada pelo celular usando a conexão 3G ou wifi) para as minhas amigas. Poucos minutos e choveram ligações, mensagens.

Liguei para uma colega do escritório, recém alçada à condição de amiga. Ela largou tudo, me buscou e dormiu lá em casa. No meio disso tudo, ainda me levou à missa (Sim, eu já estava precisando me reconectar com Deus –Aliás, missa aqui é uma experiência única, alegre que só) e para comer pizza.

Acordei, fui para a ioga. Chorei, meditei levantei para sacodir a poeira. Fui almoçar com uma parceira da empresa. Estava diante de um prato de comida vegetariana, conversando com a ganhadora do prêmio Folha de São Paulo de Empreendedorismo Social, o mais importante do País, reconhecido internacionalmente. Bonita, alegre, começamos a traçar planos para apoiar a alfabetização no Norte e Nordeste. Essa mocinha aí coordena o Instituto Chapada, que está revolucionando a qualidade do ensino público no Interior da Bahia.

Já eu, para os desavisados, além de coordenar imprensa, patrocínio (cool pode concordar), cuido do Crer pra Ver, projeto que reverte cada centavo do lucro líquido das vendas em investimento em Educação.
Papo vai, papo vem. Criamos projetos e sonhos juntas. A empreendedora olha e diz: “ Você entrou aqui com o olhar apagado, agora estão brilhando!”.

Mas, é claro! Eu só estava diante de uma mulher que empreendia e usava a energia não para ganhar dinheiro, mas para mudar vidas. No caixa, na hora de pagar a conta, vi ímãs de geladeira. Comprei o da Audrey Hepburn, do Mao Tse Tung e dos Beatles. Postei no face: meus companheiros de almoço. Sim, a conversa foi tão inspiradora que pareciam que eles haviam sentado à mesa.

Companhia inspiradora como essa turma de peso

Essa pessoa que vos fala não é milionária. Mas, se sente rica de felicidade. A sensação que tive foi a mesma da
tarde que reencontrei o Ravi em Munich (Pode fuçar, ele está no meu face). Manhã de primavera, grama e cerveja. Aquele indiano que encontrara no Recife anos antes me falava sobre vida, alma, aderência à essência. Deu um calorzinho danado no espírito (Antes que especulem, não, ele não entrou na lista de ex-amores). Alguém conseguia traduzir em palavras o sentido do que é FIB (Sábios butaneses!).

Com esse sorrisão, não se pode duvidar que o Butão é o país de maior FIB no mundo

Senti esse calorzinho de novo. Como é bom estar sendo sincero com a própria essência! Trabalhar com sentido, ser honesta com os próprios princípios.

Morar na China foi maravilhoso, em Dubai, também. E agora, Bahia. Sentindo o calorzinho da descoberta de novo. Terra inspiradora e abençoada por todos os Santos! Me mostrando que felicidade é “uma questão de ser”, plagiando o Jeneci.
Agora, escrevo do avião, seguindo para Recife. No aeroporto, uma amiga de infância me espera. No bar, o resto da turma. No dia seguinte, o casamento de uma amiga. Antes, uma parada no cabeleireiro (para ficar mais loira).
Afinal, fiz 30 anos, enloireci como a Cléo Pires, com alguma sabedoria das rugas evitadas com Natura Chronos (Olha o merchandising!) e com uma FIB crescente.

Mas, olha lá, a FIB não tem fórmula. Crie a sua. Inshala, é muito ouro!

Para quem acabou de ler esse post, um abraço do tamanho da Muralha da China e carinhoso do jeito que só o povo baiano sabe ser.
Da pernambucana bairrista, crítica e braba, que já levou nãos, superou alguns impossíveis e volta a acreditar que não existe padrão para nada que valha a pena. :)

Que sigamos com as bênçãos da Bahia

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