
As mocinhas aí fazem a fila andar e estão nem aí.
Hoje, Sexta, dia de folga, aproveitei para me bronzear na laje. Isso mesmo. Biquinão, bronzeador, Ipod e toalha. Subi à cobertura da vila onde moro (um tipo de habitação bem comum aqui, são casas com mais de dois andares, parede colada com a do vizinho e isoladas por um só muro) para aproveitar o dia de céu azulzão.
Aqui, tem praia onde dá para usar biquíni. Infelizmente, minha casa fica numa área árabe, então, pezinho na areia sem burca nem pensar! Como nos bons tempos da minha vida no Recife, levei um livro para me entreter enquanto torrava. Escolhi O Reino das Mulheres, de Ricardo Coler. Este argentino jornalista, médico e escritor desbravou o mundo das chinesas Mosuo, minoria étnica que vive em Yunnan, na China.
Infelizmente, não tive como ir lá, conferir com meus olhos um dos últimos matriarcados da Terra. Sim, meus caros, existem povos onde a mulher é quem manda. Nesta leitura, que recomendo a todos, o autor mostra como nessa comunidade a violência é considerado algo baixo e vil, ciúme é mesquinhez de alma, possessividade, nem se fala.
As Mosuo não casam. Vivem eternamente na casa da mãe. Quando a matriarca morre, a filha mais velha assume o papel de ser a chefe provedora do lar. Elas administram, dão a ordem, os homens apenas executam o que há de braçal, de força. Afinal, o tônus muscular masculino é algo incomparável.
Elas escolhem os homens com quem dormem. Os cavalheiros batem à porta delas à noite e elas dizem se os querem ou não. No final, vão embora. São apenas amigos. Se são alçados à categoria de namorados, aí, a fidelidade é exigida. Mesmo assim, se o gorro do dito cujo é visto pendurado na porta de outra moça, nada de gritaria, rolo de macarrão na mão e rebuliços. Para essas chinesinhas, colocar nas mãos de um homem a razão de viver é algo impensável. A vida sempre continua. A fila sempre anda.
Os filhos não conhecem os pais. Quando engravidam, mal sabem que foi o responsável já que, como vocês podem ver, nesse tipo de casamento andante, os parceiros são muitos. A figura masculina na casa são os tios, ir

Que devem torrar aí dentro, ai, isso devem!
mãos.
Aí, levantei-me para olhar a vista. Enquanto os rapazes jogavam beisebol, suas esposas, de preto completo, molhavam os pezinhos na água. Parei uns minutos para refletir sobre a minha realidade, a que eu acabava de descobrir pelas páginas e a que eu via.
Normalmente, nós, ocidentais costumamos ter uma pena danada das moças de burca. Confesso que ainda não tive a chance de bater um papo cabeça com uma local, adepta do véu. Queria saber mais sobre o que elas pensam. No entanto, lembro-me de uma vez questionar um amigo por que a mãe dele insistia em cobrir todo o rosto, se ela poderia apenas envolver os cabelos com o véu. A resposta: “Ana, isso para ela não é sofrimento. Ela se sente valorizada, porque meu pai quer privá-la de ser exposta. Ao mesmo tempo, ela esconde o que há de melhor, já que não interessa a ela exibir sua beleza a quem pouco vai lhe agregar”.
Lembro-me muito de um amigo germano-indiano, que esteve no Recife. Não havia ainda partido para meu périplo pelo mundo. Estava para decidir entre China e Índia. Comentei que um dos motivos que optaria pelo primeiro país seria a liberdade que não teria no segundo, conhecido por ser um local onde a cultura é machista.
A resposta: “Ana, é uma outra forma de encarar a mulher. Primeiro, para nós, a ocidental é tratada como uma coisa, um objeto quando tem seu corpo exposto para ser, à primeira vista, o seu cartão de visita. Quando deveria ser valorizada pela sua alma, seu caráter. Segundo, o que pensamos é: Se homem e mulher saem de casa, quem cuida dos filhos? Vocês não percebem que a indiana, dona-de-casa, não é considerada um encostou ou algo inferior, como no Ocidente. Ela é valorizada por ser peça fundamental na família”
Sempre achei a cultura brasileira injusta conosco, seres do sexo feminino. Canta-se uma liberdade que não existe. Podemos, sim,usar minissaia, top, barriguinha de fora. Só que, ao meu ver, somos tratadas como bens sexuais pela mídia, pela sociedade. Daí essa obsessão da brasileira com plástica, fitness. Somos um país onde se lê pouco e se malha muito. Nada contra a vaidade (Também, que fique claro, não sou uma daquelas nerds horrorosas e despeitadas!), nada contra o belo, mas conteúdo é preciso. Amém, existem mulheres na terrinha que sabem dosar bem isso. Mas, a maioria ainda precisa saber lidar melhor com essa questão.

Que a brasileira devia mexer mais o cérebro, ah, isso devia!
Não acredito que existam verdades absolutas. Continuo respeitando as adeptas da burca e, sinceramente, não me inspiram pena. O que é injusto é a falta de opção. É quando vivem em países onde, se querem ter o direito de ser diferentes, são punidas. Isso, sim, me dá pena. E que fique claro: os apedrejamentos que são tão alardeados na mídia para aquelas que desistem do véu não existem nos Emirados, tampouco estão determinados pelo Corão.É o mau uso das palavras de Alá para fins políticos em países como o Afeganistão.
Mas, aí isso é assunto para um outro post.
Queria terminar com a frase de uma das chinesinhas Mosuo, escrita no livro de Coler. Ao ser perguntada de que tipo de homem gostava, a matriarca, do alto do seu poder, respondeu: “O que presta atenção em mim, cuida de mim e me protege”. E quem não gosta? Sejam as moças dos olhinhos puxados, as de preto ou as de biquíni. Cada uma no seu galho. Mas, gostando do mesmo tipo de macaco.
Por que os homens não aprendem?