Sobre amor de infância, confetes e Mário Quintana

 

Sim, eu estava prometida a ELE desde os meus dois anos de idade. Passava o Natal, minha mãe já começava a costurar a roupa de gala a usar na cerimônia. Era só esperar Fevereiro para que eu O encontrasse. Por meros cinco dias. Desde a mais tenra idade, sabendo que iria enlouquecer ao encontrá-lo. Meu avô alimentava esse “amor prometido”. Montava um camarote em sua loja na Rua da Concórdia, reunia família e amigos. E, claro, lá estava eu com minha fantasia de lantejoulas, cuja temática mudava a cada ano.

E assim cresci. Convivendo com o meu amor prometido. Todos os anos. Intensamente. Eu era novinha, mal sabia o que era paixão, quiçá amor. Veio a adolescência. E a efervescência de brincar nas ladeiras do vizinho – sem a vigilância dos pais – fez com que a intensidade da f fosse maior. Dias a fio embaixo de um sol escaldante, fantasias cômicas e muita “resenha” para contar na volta às aulas.

Veio a independência financeira. E a vontade de liberdade e autoafirmação. Vontade de conhecer mais amores, testar os sabores diferentes. E assim, escanteei o meu amor prometido. Numa vontade de mostrar que sou eu que escolho. Primeiro foram o samba e as marchinhas. Depois, o axé, Filhos de Gandhi, Ilê Ayê. Esse último aqui, quase me fez largar de vez o antigo amor prometido e me firmar com outro.

Mas, a vida dá voltas e me faz reencontrar o amor de infância. Desta vez, mais madura, com as marcas de quem andou viajando por aí. E aí vieram as memórias, o sabor do conhecido que ajudou a construir sua história. E a paixão bateu. Com força. Daquele jeito que faz você ficar mais bonita para a amiga que te reencontra ao final dos tais 5 dias. Que deixa você ficar dias a fio lembrando do seu amor e rindo à toa, como se tivesse visto “passarinho verde”.

É carnaval do Recife… não acho que seja só paixão. Acho que é amor. Já dizia Mário Quintana: “O amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço”. E a liberdade que você me deu de conhecer o que havia lá fora, só me fez constatar: É amor, do mais puro o que tenho por ti. Igualzinho a Jessie e Celine de Antes do Amanhecer, Entardecer, da Meia Noite. Amor para a vida inteira. ;) E nem escuto que todo carnaval tem seu fim.

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PS: Essa foto aí eu pesquei aleatoriamente da Internet. Antes que me perguntem: não sou eu :p

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Porque Belém do Pará é puro luxo

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Por que Belém é luxo…

É luxo porque tem por do sol no mercado Ver-O-Peso todo dia. E todo dia tem peixe fresco, tem açaí carregado na cesta equilibrada na cabeça e qualquer um tem acesso a esse tesouro;

É luxo porque mesmo com tanta natureza disponível, é uma capital de quase 400 anos com oferta de todo o mundo moderno;

É luxo porque a gastronomia é ensandecidamente deliciosa e única. Com todos os temperos contemporâneos acrescidos do que se tem lá: cupuaçu, açaí, queijo cuia, tacacá. Com cachaça de jambu que treme até a garganta. Tesouro que só é de lá. Inveja branca!
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É luxo porque você pode ir a qualquer restaurante e tudo terá requinte. E assim é luxo:

- Comer da doceira Tia Maria, numa casinha do século XVIII e que dentro é toda inspirada no mundo fantástico de Alice no País das Maravilhas: lustre de xícaras, relógios que lembram que o tempo pode parar diante de uma boa torta de queijo cuia e cupuaçu. E quem precisa de chá para viajar quando se tem essas delícias? E tudo abençoado por Nossa Senhora do Círio de Nazaré que, como toda boa casa belenense, está lá na parede.
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Detalhes que fazem toda a diferença. Doceria Tia Maria: eu recomendo!

Detalhes que fazem toda a diferença. Doceria Tia Maria: eu recomendo!


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- Comer nas Docas e tomar a cerveja Amazonense e todos os seus pilsens e maltes misturados com cajá, priprioca, açaí. Desculpem-me os alemães, mas eles não têm ervas afrodisíacas por lá. Nós temos a fábrica aqui – da cerveja e da Mãe Natureza. E tudo com uma banda que toca em um palco “voador”, sobrevoando suas cabeças.
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- Comer no Café Trindade – que fica numa pracinha revitalizada, que já fora o Baixo Meretrício. E assim, como é fazer memória com sofisticação, ele é ambientado com retratos dos bordéis do Belle Époque. E ainda falando francês, serve filhote com arroz no jambu.

- Comer no Parque Residence – um self service delicioso que simplesmente fica dentro do terreno do Palácio do Governador. E tem Orquidário. E tem estátua de Ruy Barata para você bater foto e dizer para ele: feliz do povo que se permite usufruir no seu dia a dia da própria história.

Uma pausa para um papo com Ruy Barata

Uma pausa para um papo com Ruy Barata

E Belém é luxo.

É luxo porque tem a maior manifestação católica do mundo. O Círio de Nazaré leva dois Galos da Madrugada para as ruas – isso mesmo, 2 milhões de pessoas em procissão de fé. E todo mundo vai, Na corda ou atrás. Não importa.
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É luxo porque tem a Catedral de Nossa Senhora que é mais bonita que a Saint Cro Creu de Paris, porque, sim, me permito ter o luxo de achar que as coisas do nosso País podem ser melhores que a do Além mar.

É luxo porque  foi onde se fundou a Assembleia de Deus no Brasil

É luxo porque tem o mercado Ver-o-Peso onde as erveiras passam diagnóstico, te dão banho de cheiro e não tem carrego que encoste.
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E é mais luxo ainda porque todos convivem em paz diante de tanta diversidade de correntes religiosas.

É luxo porque além de tudo que mencionei acima, tem muito mais que não tive tempo de ver: O Teatro da Paz, a Casa das Janelas, o carimbo, o Palafitas, o sorvete da Cairú.

É luxo porque você passa quase o mesmo tempo de ir para Portugal para chegar lá e, mesmo assim, volta com um sorrisão na boca. 

É luxo porque consegui ver tudo isso entre um compromisso e outro com a ajuda dos gentis, fofos e amados Mirella Andreotti, Monalisa Caetano, Nádia Alencar e Rodrigo Cabral, que seja mineira, pernambucana ou local, carregam o calor que o belenense tem de saber receber. Muito obrigada!

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janeiro 22, 2014 · 2:16 am

O mundo encantado (da cerveja) que é Munich

Munich, Monique, Munch, seja qual for a escrita, é uma terra encantada. Esse post já devia desde a minha viagem mochileira. Vieram a Bahia, mudança e essa história ficou por contar. E não que não valesse a pena.

Começo pelo final. No dia de ir embora, fui a uma lojinha comprar souvenirs. Quem me atende?  Uma velhinha, cabelo branquinho, com roupa de tirolesa e um cuco de desenho animado a cantar na parede. Sim, os Cu-cos existem! E essa é Munich. Uma cidade saída dos contos dos irmãos Grimm. Não à toa eram alemães.

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A cidade é a típica paisagem europeia. Bondinhos, flores, igrejas antigas, relógio na praça tocando  às seis horas. E com gosto de cerveja. Sim, a maior cervejaria do mundo está aqui.  Salões e mais salões com pints gigantescas de cerveja. Deliciosa. E está vindo o carnaval aí. E pensar que terei de me contentar com Skol quente. Mas, cada coisa a seu momento, correto?

 

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Sem falar dos Biergarten – Jardins de Cerveja. Grama verde, você pode levar sua própria comida e – mais cerveja! De todos os maltes e tipos. Programa família. Para todas as idades.

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E para não ficar só nisso. Um ótimo passeio é ir ao museu da BMW e conhecer a fascinação dos alemães por detalhes, design e nada que se assemelhe  a quadradismo de versos. Em seguida, a pé, chega-se ao Parque Olímpico. Um ótimo passeio.

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E aí, eis que por uma coincidência, chego à cidade em meio ao Festival da Primavera. Uma mini Oktorbefest. Só isso. Um parque de diversão no meio da cidade. Shows e mais shows de rock, mas um clima meio carnaval, sabe? A turma fantasiada com roupinhas típicas – tirolesas e calças de couro. E o mais legal – aqui pernambucano sabe o que é – chegar para lanchar de madrugada em alguma lanchonete e encontrar a galera de fantasia, rindo à toa, como se o dia não tivesse fim (Sounds familiar?).

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E como estava na Primavera, as flores vieram dizer Oi e mostrar que a vida continua. E assim foi a minha Munich. Linda, florida, animada e fantasiada. Como nos contos de fada. 

Once upon a time… que se repita! Mesmo que todo Carnaval tenha seu fim…

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A Pérola da Chapada Diamantina

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Iraquara tem mais belezas do que a Gruta Azul. Ideb melhorando e histórias de transformação 

 

“Como é bom comemorar as conquistas da vida, sabendo que o meu semelhante também pode ser feliz!”. Essa frase simples, mas espontânea (o que a torna ainda mais especial) escutei na última semana, durante um curso do Instituto Walmart (http://www.iwm.org.br/home/), sobre como criar projetos de sentidos. Nele, representantes de entidades – entre creches, ONGs, projetos sociais – que já se beneficiam do programa de aproveitamento de alimentos ou que buscavam se estruturar para esse ou outros fins.

O autor da frase é um diretor de creche, que versava sobre como as classes ascenderam, passaram a consumir e, quando pareciam embebecidas com esse poder lhes concedido pelo crédito, eis que se vê o povo indo às ruas – não pelo direito de ter mais financiamento para comprar um novo carro-  mas, numa causa mais imediata, pelo acesso universal a um transporte público de qualidade.

Ganhei meu dia com essa frase. Poucas pessoas conseguiram traduzir de forma tão bela e natural o momento em que o País passa. Lindo! Bravo!

E isso me lembrou Lucilene, a pérola negra da Chapada Diamantina. Em fevereiro deste ano, segui para a cidade de Iraquara, Interior da Bahia. Terra que há alguns anos sofria com um dos piores Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) do Brasil e, hoje, está bem pertinho de se igualar a São Paulo, o melhor do Brasil. Lá e nas cidades ao redor, temos o trabalho do Instituto Chapada (ICEP – http://www.institutochapada.org.br/), que, dentre outras premissas, trabalha com o compartilhamento de conhecimento entre professores, participação dos pais nas escolas e incentivo à leitura.

O trabalho é patrocinado pelo Instituto Natura, com a verba conquistada com o engajamento das consultoras que se incubem de vender a linha Crer para Ver, cujo lucro líquido é todo revertido para o financiamento de projetos de melhoria do ensino nas Escolas Públicas (Veja o impacto na vida dos beneficiados http://www.youtube.com/watch?v=nl2RgUJPnyE).

Voltando à Lucilene. Eis que chego a Iraquara para gravar um vídeo que mostrava a evolução na vida dos estudantes após o início das atividades do Instituto Chapada. A pauta era reunir pais e seus filhos para mostrar como a Educação vem mudando o presente e criando novas perspectivas. Uma das coordenadoras da escola soprou ao meu ouvido: “Vocês precisam conhecer Lucilene. Ela é a nossa pérola da Chapada”. Vamos busca-la.

Lucilene é gari. Casada com um jardineiro encarregado de podar as árvores da cidade. O casal tem três filhos. Todos alfabetizados. Brilhantes. O mais velho (que aparece no final do vídeo acima postado) ganhou a Olimpíada de Matemática da Cidade. Ganhou bolsa de estudos. Não estamos falando de um talento inesperado.  Mas, de uma família unida, que valoriza o que é essencial, que consegue enxergar e trabalhar por um futuro por caminhos certos, esquecendo a facilidade do que é torto e mais provável para quem vive sob dificuldades – tráfico, prostituição, exploração de trabalho infantil.

Nossa pérola negra se emociona quando fala do orgulho que tem dos filhos. “Eu acordava de madrugada, mas fazia questão de deixar a comidinha pronta para que eles seguissem felizes para a escola”. Dedicação materna. Infelizmente, tornando-se incomum mesmo em meio a famílias abastadas. “Muitas vezes, pedia na prefeitura permissão para que eles usassem os computadores e fizessem o trabalho da escola. Sabe como é, escola em primeiro lugar.” Muito bem, Lucilene, saiba que muitos pais que tem Internet wifi em casa não conseguem dar esse peso à educação aos filhos. Um carro, a roupa de marca, a viagem para Disney são bem mais importantes.

E Lucilene também se transformou. Ela, analfabeta, que não perdia uma reunião de Pais e Mestres da escola dos filhos (Olhe que já vi escola de classe média mandar circular lembrando que motorista e babá não substituem pais em situações como essa), começou a se cobrar estar apta a ajudar os filhos com a tarefa de casa. Entrou no Supletivo.

Lágrimas. “Filha, saía do trabalho correndo para deixar o jantar pronto para os meninos. Amém, meu marido me ajudava. Muitas vezes, a professora estava na porta me esperando para começar a aula. Ela não queria que eu desistisse. E eu agradeço todos os dias a ela. Hoje, sou alfabetizada e me engajo a levar as outras garis para o curso. É  libertador ler. Ajudar um filho”.

Minha pérola negra. Deste-me uma lição de esperança. O tesouro de Iraquara quer mais pérolas. E que o céu se abra e façam rojar mais preciosidades como ti por todo País. Afinal, quem tem Educação escolhe. Não é escolhido pela sorte e destino.

 

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Sobre descobrir o amor escondido pela democracia

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Passar por todas essas manifestações no País, reacendeu finalmente – depois de 4 anos de regresso – a vontade de ser brasileira.  Guardei por esse tempo todo esse sentimento. Voltei ao Brasil no auge do sentimento “agora, vai, estamos crescendo” e fui assistindo ao cavalo que passava selado, numa escolha covarde de optar por um inchaço econômico apoiado no endividamento da população.

Compartilhei apenas com Sônia Bridi, a repórter da Globo – telepaticamente – o desgosto com o Brasil, ao ver o dragão chinês voraz. À época, tanto eu quanto ela testemunhávamos as estradas sendo concluídas,  crianças na escola e já aprendendo inglês, custo de vida saudável e promessas dos governistas saindo do papel. Em seu livro Lao Wai, em que ela relata as experiências de viver e cobrir as Olimpíadas de Beijing, ela fala: “Foi preciso receber de presente uma caixa de DVDs de Marisa Monte, escutar a nossa musicalidade para me sentir feliz com o meu País”.

Nas minhas férias de Natal, aterrissar no aeroporto de Guarulhos – o maior do Brasil – me fez lembrar o que é viver na terra da “gambiarra”, do “jeitinho”, da tapeação. Aquele dinossauro era e é a principal porta de entrada para esta terra tão maltratada. E olhe que estamos falando de uma das potências dos BRICs.

Enfim, o que quero dizer é que muita gente me criticou por defender a China. “O Brasil é uma democracia”, diziam. E eu pensava: “Democracia que serve para quem? Para quem morre de fome na seca por causa de obras  não concluídas e superfaturadas como a Transposição do Rio São Francisco? Para as crianças que comem – quando comem – uma merenda terrível por causa de desvios e o que seja? Que tem um sistema político que permite conchavos que garantem gente como Renan e Temer no poder? Humpfff

Mas, agora com essas manifestações, eu posso dizer: “democracia brasileira, eu gosto de você”. Mesmo que não venham reformas estruturais tão prontamente, mas poder dizer “Turma do governo, não me faça de trouxa” vale mais que qualquer bilhão de yuan.

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Sobre um faroeste, um céu e uma identidade. Marcante.

 

 

Depois de assistir a “Somos tão jovens” e “Faroeste Caboclo”, veio a vontade de falar sobre Brasília, essa capital que invadiu minha vida em tantos momentos. Sim, eu gosto de lá. Antes de tudo, gosto muito (A ponto de defender com unhas e dentes quando um passageiro do mesmo voo intrometido questionou o porquê de passar férias lá). Mas, Brasília é marcante. Não só porque foi construída no facão de JK. Porque tem formas, histórias de contornos próprios.

As canções de Legião Urbana são a trilha dessa história recortada no formato de um avião.  De um lado, a Ceilândia dos Candangos – nordestinos que imigraram para construir a nova capital federal e se instalaram à margem do plano piloto. E à margem ficaram em tudo. Até hoje, o faroeste da criminalidade existe em cidades como Samambaia, por exemplo, em que há bem pouco tempo não havia sequer uma delegacia decente.

Mas, a música “Faroeste Caboclo” traz Jeremias, o playboy traficante que organizava a “Roconha”, polícia envolvida em proteger a sua “área de negócios”. É um recorte da juventude bandida de Brasília, alimentada pelo ócio – que também gerou o rock n’ roll dos anos 80 – e encoberta pelas estrelas do paletó ou do cargo do pai.  E, no Plano Piloto, surgem histórias trágicas.  Como o Caso Ana Lídia – a menininha de 7 anos encontrada morta,  após ser torturada, estuprada na casa de um senador. A garotinha teria sido entregue pelo irmão como pagamento ao traficante “dos playboys”.  No crime, suspeitos filhos de militares, futuro presidente do País e ninguém preso. Ana Lídia deu nome ao parque infantil do Parque da Cidade. Um faroeste entre as quadras da Asa Norte.

Tanto o parque quanto o zoológico trazem histórias dos heróis e mártires. O zoo recebeu o nome do sargento que morreu ao resgatar uma criança da vala das ariranhas. Sargento Silvio Delmar Hollembach. E que bom que estão aí por homenagem ou para lembrar a impunidade não merece ser esquecida. É evolução. Da época em que os candangos morriam ao construir a antena de TV e eram cobertos com cimento para não atrapalhar a obra. Heróis anônimos.

Essa Brasília não é só peso. É pujança. É céu mais lindo (A Lua é a da Bahia). É Patrimônio da Humanidade. E que entrou na minha vida de forma tão forte. Era 2002, primeira viagem que minha mãe fazia conosco depois de um sequestro (história para outro post). Além de ser presenteada com um voo que fazia escala em Petrolina – leia-se ver de cima o Rio São Francisco e toda sua beleza, fui surpreendida com pessoas fazendo cooper tarde da noite, sem nenhum resquício de medo. E, assim, Brasília tornou-se meu porto seguro.

E, longe do ócio da época rock n’ roll, BSB já tem idade para ter seu museu. Inclusive, na minha vida. Ai que saudade do cinema na Academia de Tênis! Filme de arte, com direito àquela pipoqueira vermelha antiga, o vendedor com fraque. Um incêndio levou tudo embora L.

Mas, aí veio o Mangai, com suas redes e vista incomparável para o Cerrado. Que é maravilhoso, mas não substitui a carne-de-sol do Palhoção. E o prazer de encontrar os amigos já tão “abrasiliados”, com rotina que envolve o parque, alta gastronomia, pouco transito, protetor labial e estabilidade. Brasília, eu gosto de você.

 

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Quando uma simples PEC suscita um passado injusto e um presente de privilégios

Uma discussão sobre herança cultural, machismo, sociedade mais justa e homens mais interessantes

Uma discussão sobre herança cultural, machismo, sociedade mais justa e homens mais interessantes


Toda essa discussão sobre a PEC das domésticas (um simples post de celebração à Emenda Constitucional gerou comentários, alguns bem revoltados) me deu uma agonia danada e, consequentemente, vontade de retornar às memórias do que vi pelo mundo e escrever aqui por que esse tema sempre me intrigou.

Em 1997, fiz meu primeiro intercâmbio para a Terra da Rainha. Cambridge, Inglaterra. Esquema tradicional: ficar com uma host Family. Significava ter direito a um quarto, a gozar de duas refeições ao dia – menu determinado pela landlady, a dona da casa, com no máximo espaço para informar suas restrições alimentares -, zero da mordomia da classe média pernambucana, ter horário para colocar a roupa na máquina, obrigação de manter quarto limpo e organizado. Nada mais justo e deveria ser comum, correto? Pois, na mentalidade da elite, esse tipo de vivência também se inclui no pacote do investimento em educação que justifica mandar os filhos para o Exterior. “Vai ver o que é bom, ter de se virar”.

Bem, todos os filhos da classe média, espero, sobrevivem a esse estágio de sobrevivência sem empregada para guardar a roupa espalhada, forrar a cama e lavar a louça. Só que, ham!, se essa rotina continua quando regressam à terra natal, isso é outra história. Falo, sem hipocrisia nenhuma e por experiência própria. Sou aquela menininha que teve babá, muitas vezes que cuidou do pai e do tio, cozinheira que criou a filha conosco e fieis escudeiros que, sem eles, minha vida teria sido bem menos confortável e que, mais importante: ensinaram-me muita coisa, muita mesmo. (Por isso, deixo um beijo no coração das Marias que me seguraram no colo enquanto mainha trabalhava, Neide que tinha pena do quanto eu trabalhava e levava espontaneamente o café para o computador porque eu esquecia de comer, Livramento e seu tempero inesquecível, Zefinha que assistiu à primeira vez que cavalguei na fazenda e hoje ajuda a organizar a casa da praia depois das inúmeras farras e tantas outras pessoas especiais).

Somos muito mal acostumados. E no ranço da herança do açúcar isso é ainda mais latente. Daí, tanta indignação com o trabalho que os patrões terão de ter para regulamentar o trabalho das funcionárias que ajudam na criação dos filhos e na organização da casa e com os consequentes gastos extra.

Concordo que devemos cobrar contrapartidas do governo na hora que exigem esse tipo de reorganização: creches, pagamento do FGTS facilitado, acesso a modelos de contrato legal que protejam as partes envolvidas, campanha de instrução sobre como administrar a relação trabalhista, etc. Mas, sempre me vem na cabeça o rescaldo cultural por trás de tanto desconforto.

Lá atrás, enquanto isso na Terra da Rainha, eu conhecia Florence e David. Uma francesa e um holandês, que acabaram de ter Amber e já tinham Max, 4 anos de idade. Os dois tinham carreira e trabalhavam muito. Resolveram receber estudantes para inteirar a renda já que ela precisava de uma babá para ajudar com a bebezinha. Daí, conheci Maria, a babá argentina, que descolou esse job para bancar os estudos do inglês. A cena que me deu um choque de realidade: Maria comia com a gente, lia o jornal, discutia política com a patroa. Ah!

A menininha de 14 anos aqui parou para pensar. Claro que sei que Europa e América Latina são bem diferentes e as babás Marias também. Mas, eu olhava e conversava comigo mesma: “Quando um dia os trabalhadores domésticos serão tratados assim e conseguirão se posicionar diante dos patrões desse jeito?”.

A menininha voltou para Recife. E voltou a usufruir de todo o conforto da classe média.

Aos 24 anos, segundo intercâmbio. China. Ok, aqui não é nenhum exemplo de respeito às leis trabalhistas. Mas, minha ayi, que vinha duas vezes por semana, negociou de cara a quantidade de horas trabalhadas e as tarefas que eu a estava contratando para. E olhe que ela era semianalfabeta. Alguém aqui já teve tal diálogo com sua secretária doméstica?

Então, dentro desse quadro, neguinha aqui aprendeu a lavar, passar, cozinhar, cuidar da casa. Não se tornou nenhuma exímia dona-de-casa. E, longe de amar a situação por se sentir mulherzinha (num sentimento aqui de “mulheres nasceram para isso”), adorou se sentir liberta da tradição serviçal de casa.

Ainda na Ásia, lembro-me do desespero dos casais brasileiros atrás de empregadas filipinas que dormissem em casa para ter o conforto que mereciam. E alimentavam todo um comércio de headhunters que recrutavam essas profissionais para trazer para a China. E, aqui, friso: era muito comum entre brasileiros.

Por isso falo do rescaldo cultural por trás dessa “polêmica PEC”.

E por que não falar em machismo?

Oras, agora que mulherzinha e homenzinho já têm contracheque no final do mês e que ter auxiliares ficou pesado no bolso, Joãozinho, Zezinho, Toinho e todos rapazes terão que, provavelmente, dividir a criação dos filhos e a organização da casa. Ao menos que Mariazinha resolva voltar a ser dona-de-casa.

Aí, fico aguardando a quantidade de homens interessantes que surgirão para minhas filhas, sobrinhas e netas.
Já aguardo as pedras e a acusação de que sou contra casamento, família, etc. Não é nada disso. Não vejo problema nenhum em a mulher dividir a preparação do almoço, a faxina, cuidar da criançada. Só usei a palavra “dividir”. E porque acredito que construir uma família é algo bem maior que subterfúgios para manter o status quo. Inclusive, no trato das empregadas domésticas. Bom domingo!

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