janeiro 2, 2010

Eita, saudade! Encontrei na Internet esse texto publicado no site do Plenarinho, à época das Olimpíadas, quando eu ainda vivia na China.

Confira o original em: http://www.plenarinho.gov.br/noticias/reportagem-especial/brasil-chines-china-brasileira

Galerinha, amanhã – dia 8 do oitavo mês do ano (agosto) de 2008, às 8 horas e 8 minutos – será realizada a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim no Estádio Olímpico, conhecido como Ninho (esse da foto). Os jogos serão um tipo de cartão de visita dos chineses para o mundo. Afinal de contas, a China sempre foi um país muito fechado por conta do regime comunista. Só agora as pessoas estão podendo conhecer um pouco mais dos costumes e tradições da gigante do oriente.

Para que você possa ter uma idéia do quanto a China é diferente do Brasil, o Plenarinho entrevistou um chinês que mora por aqui e uma brasileira que mora lá. Confira! Família Ana – brasileira na ChinaPara os chineses, a família é fundamental. O funcionário da embaixada Hu Bin tem 26 anos e está há três no Brasil. Ele conta que morre de saudades dos pais. A brasileira Ana Addobbati (na foto ao lado) tem a mesma idade de Hu e é jornalista e administradora.

Bebês chineses continuam sendo minha paixão

Vivendo na China, ela confirmou que realmente a família é importantíssima para o povo de lá. Porém, a formação da família na China é bem diferente do que conhecemos. O casamento é, muitas vezes, arranjado pelos pais. Enquanto na nossa cultura, na maioria das vezes, a escolha é guiada pelo amor. – Para os chineses, a família deve vir em primeiro lugar. Então, eles tentam selecionar bem quem deve ser um pai ideal, uma mãe perfeita – conta a brasileira.

Paisagens – A  China sofre muito com a poluição. Quase todo o dia o céu está cinza. Por isso, as paisagens naturais fascinam tanto Hu Bin e causam tantas saudades em Ana. Hu disse estar apaixonado pelas belezas naturais do Brasil. Ana disse que sente muita falta de olhar para o alto e ver um céu azul.

Hu Bin contou que adora o Brasil. – Este é um país muito bonito. O povo é alegre e aberto. São muitas raças diferentes e não há discriminação – disse. A alegria brasileira é a maior saudade de Ana. Ela disse que sente muita falta do sorriso brasileiro. – Quando moramos fora, a gente tem noção do quanto nosso povo é feliz – contou.

Ela explicou que isso não significa que os chineses sejam um povo antipático. Porém, de acordo com ela, eles não têm a mesma doçura do brasileiro. Ana contou ainda que, apesar das diferenças, é muito legal morar na China.

Ela destacou a segurança do país. Disse que por lá há pouquíssimos crimes e que os jovens são muito dedicados e estudiosos. Porém, ela explicou que alguns costumes chineses podem assustar os brasileiros.

– Aqui usar o nosso biquíni pode dar cadeia – alertou. Hu Bin também disse gostar muito de morar por aqui. E ele já aderiu a costumes bem brasileiros. Quase todo sábado rola um jogo de futebol lá na embaixada. Outra paixão brasileira de Hu é a comida. Ele não dispensa um bom churrasco e diz ser fã da comida mineira.

Sorte – Você pode estar se perguntando o motivo de a abertura da Olimpíada ser exatamente no dia 8 do mês 8 de 2008 às 8 horas e 8 minutos. Por que essa enxurrada de oitos? É que na China esse número representa sorte. Então, se depender da superstição, Ana vai se dar bem… Ela está completando seu oitavo mês longe de casa!

dezembro 24, 2009

Espírito natalino são mais que palavras

Meus votos:

Ontem, dia 23 de Dezembro, recebi um grande presente. Doei meus livros favoritos a uma biblioteca localizada em uma das favelas mais perigosas do Recife. Nos olhos de quem luta para ter o direito a sonhar, vi o brilho de alegria ao ver a capa de um Saramago, um Machado de Assis, um João Cabral de Melo Neto.

Que todos vocês recebam neste Natal e em 2010 um presente assim. Doem seu tempo, seus ouvidos, suas palavras, seus abraços e o que achar que seja importante para fazer o próximo feliz. Para fazer um mundo mais edificante. O sorriso, o brilho no olho, a palavra de obrigada lavam a alma e nos dão energia para acreditar que amanhã será diferente.


Um abraço apertado para esmagar todos os fantasmas entre as pessoas que amamos

Que o espírito natalino seja mais que palavras pró-forma. Que permaneça ao longo de um 2010 esplendoroso.

Beijos!

novembro 30, 2009

E a bolha estourou. Não era novidade

Há muito, as obras para novas palmeiras foram suspensas

Caros leitores deste despretensioso blog,

Não poderia deixar de postar um comentário sobre o estouro da bolha em Dubai. Bolha que, na verdade, apenas respinga agora pela mídia, pois seus efeitos já vinham sendo sentidos desde o começo do ano.

Vale frisar que, com o controle que existe da mídia, se a informação do pedido de renegociação das dívidas da Dubai World, estatal que administra as finanças imobiliárias do Emirado, saiu na mídia é porque, acredito, Abu Dhabi desistiu de tampar o buraco do primo perdulário.

Neste sábado, recebi o seguinte e-mail de um amigo jornalista:

Oi, Ana.

Vi uma matéria sobre Dubai, na  (revista) Piauí deste mês. É verdade isso? http://tinyurl.com/mws4et
Beijos
A referida reportagem já vinha circulando na internet e traz um testemunho único do que vinha acontecendo lá desde a crise do subprime americano.
Abaixo, meus comentários acerca de trechos da matéria

“De repente, nossos cartões de crédito pararam de funcionar. Fomos despejados do nosso apartamento e não tínhamos mais nada.” Daniel foi preso no dia do despejo, Karen ficou seis dias sem conseguir falar com o marido, que acabou sendo condenado a seis meses de prisão diante de uma corte que só falava árabe, sem tradução. “Agora estou aqui, sem nada, aguardando que ele saia da prisão”, explica a mulher do Range Rover. Com o olhar perdido de constrangimento, ela me pergunta se posso lhe pagar o almoço.

O caso de Karen não é único. Por toda a cidade existem imigrados dormindo clandestinamente nas dunas de areia, no aeroporto ou no próprio carro. “É preciso entender que em Dubai nada é o que aparenta ser”, resume a canadense. “Você é atraído pela idéia de um lugar moderno, mas por trás dessa fachada o que temos é uma ditadura medieval.”

É verdade, sim. Nos Emirados, quem deve vai preso. Tanto que uma das formas de se reter um funcionário na empresa é oferecer “generosos” empréstimos para comprar o carro dos sonhos, por exemplo.

Todas as noites, os milhares de peões estrangeiros que constroem Dubai são levados dos canteiros de obras para uma imensidão de concreto, em pleno deserto, distante uma hora da cidade. Ali permanecem isolados. Até poucos anos atrás, eles eram transportados em caminhões de gado, mas diante do desagrado dos expatriados agora são levados em ônibus fechados, que funcionam como estufas no calor do deserto. Todos suam como esponjas sendo espremidas.

Sonapur é uma cidade-dormitório de quilômetros e quilômetros de prédios de concreto, todos idênticos. Em hindi o nome significa “cidade do ouro”. São cerca de 300 mil homens que moram amontoados. No primeiro acampamento que visitei, logo fui cercado por moradores, ávidos para desabafar com quem se dispusesse a ouvi-los. O lugar fede a esgoto e suor.

Nunca estive no dormitório de indianos e paquistaneses. Mas, não duvido que seja assim. De fato, não há leis trabalhistas. Se você pede demissão, o seu chefe desconta o quanto quer do seu salário, sem a menor justificativa. Escutei vários relatos de taxistas que estavam em apuros, querendo voltar para casa, mas tinha contraído dívidas com o visto e com a acomodação e assim, sem poder deixar o País. Eles retêm, sim, o passaporte sob a desculpa de que o empregado, depois de obter o visto permanente, pode arranjar outro emprego e deixar bloqueada a vaga para qual a permissão de residência foi pleiteada.

Após muita pressão, a Unicef conseguiu permissão e estava se preparando para fazer um relatório sobre as condições de trabalho dos imigrantes. Estive em um refeitório de uma empreiteira. É de fazer vergonha a qualquer Serra Pelada. Sem higiene. As pessoas comem embaixo de um calor desumano. Por causa da Unicef,  já se estava contratando empresas decentes para fornecer as refeições num ambiente mais adequado.

Há sim, manipulação da mídia e isso é do conhecimento de todos. Dados de violência são omitidos – há, sim, casos de estupro, no entanto, são infinitamente menores que no Brasil – assim como notícias que possam ofuscar o “punjante” crescimento econômico do País.

Quanto à questão ambiental, engraçado, lendo a reportagem vi que não era só a praia em frente ]à minha casa que era cheia de absorventes e outras porcarias.

Bem, o Greenpeace esteve lá, mas o Sheikh Maktoum expulsou a entidade.

De toda forma, vale frisar que Dubai continua sendo um lugar legal para uma viagem de 3 dias e uma ótima oportunidade para conviver com pessoas das mais diferentes raças e nacionalidades.

novembro 16, 2009

Padecendo com Bashir, viajando com a Pipa, tentando esquecer os pijamas listrados

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Cena retrata o massacre aos palestinos. Relembrando os campos de concentração de Varsóvia

Finalmente, consegui assistir ao mais que recomendado Valsa com Bashir, filme de  Ari Folman. Impossível não ter vontade de postar algum comentário. Trata-se de um filme em que os israelenses saem do papel de vítima para serem algozes. O diretor traz as próprias memórias de quando combateu pelo exército de Israel na Guerra do Líbano (1982), que resultou no massacre de Shatila, dizimando diversos palestinos, crianças, idosos, mulheres, sob a acusação de terrorismo.

Contextualizando o conflito, na época, a  Organização pela Libertação da Palestina (OLP) havia tomado o Sul do Líbano apoiada pela maioria muçulmana. O País era então governado pelo cristão Bachir, apoiado por Israel. A falange, milícia cristã, foi quem comandou a invasão à colônia de palestinos, apoiada pelos israelenses.

Acima, postei uma das cenas do filme que mais me chamaram a atenção. Crianças levantam as mãos para mostrarem que estão desarmadas. O comandante israelense traz o depoimento de que, ao avistar aquilo, lembrou-se dos campos de concentração de Varsóvia, ao ser invadido pelos russos, libertando os judeus dos nazistas.

Enfim, num só conflito judeus matando muçulmanos que carregam  bombas, cristãos com armas em punho. Quando isso vai acabar? Numa guerra por petróleo e recursos  naturais, a religião como ideologia. E eu que cheguei a comentar que os cristãos na Palestina não mexem com ninguém. Já no Líbano… Na Síria… Na Indonésia… Na Guerra do Líbano, há relatos de muçulmanos com os corpos marcados com crucifixos. Que Jesus é esse? Que Maomé é esse? Que Dush é esse?

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Não quero fazer desse post um grito anti-semita, anti-Israel. Muito menos anti-cristã.  Nem ainda anti-muçulmano.

Obras como essa servem para baixar o nosso dedo em riste. Ponderar. Enfim.

Pegando o embalo, sugiro ainda assistir ao filme Um ato de Liberdade (Defiance, em inglês), de Edward Zwick. Mostra os judeus que uniram nas florestas da Alemanha Oriental e da Polônia e, em guerrilhas, conseguiram combater nazistas e salvar a pele uns dos outros. Uma resposta a quem critica a postura judia do que seria sempre se passar por vítima.

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Cena de O menino do pijama listrado - Para não esquecer de Auchwitz

E, para encerrar e mostrar que as respostas nem sempres estão na ponta da língua, assistam ao Caçador de Pipas, inspirado no livro de Khaled Hosseini, e O menino do Pijama Listrado, baseado na obra de John Boyne. Nos dois casos, optei pelo livro.  O primeiro, para entender o que há de belo na religião muçulmana. O segundo, para não se esquecer de Auchwitz. E da perpetuação do ódio que alimenta a humanidade e suas guerras. Em nome de nenhum Deus.

outubro 28, 2009

Paus-de-arara da nova era

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Quem sabe isso não se deleta da paisagem um dia?

Só um registro: Alguém já experimentou viajar a São Paulo ou Rio nesses vôos da madrugada, com tarifa superpopular?

Eu já. Algumas vezes.  Há quinze dias, voltando da capital financeira da América Latina, às 23h30, salão de embarque de Guarulhos, ouço o diálogo:

- Volto depois de 15 anos sem ver a família. Aproveitei a promoção e farei uma surpresa. Não avisei a ninguém que estou indo.

Quem falava era um senhor de cabelos grisalhos e rugas que contavam os esforços por uma vida diferente.

Ao desembarcar no Aeroporto Internacional dos Guararapes/ Gilberto Freyre (nome imenso, tão grande quanto a megalomania dos pernambucanos), ajudei uma moça com um bebê no braço. Ela não sabia descer a escada rolante.

Pode ser mais do mesmo. Mas, é diferente. Pau-de-arara com mais dignidade. Os Lulas de hoje podem ter mais conforto.

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Alguns de nossos Lulas já podem gozar de conforto

outubro 7, 2009

Aprendi a gostar de São Paulo

Cenas de um Brasil.

Era uma vez uma pernambucana estressada, capaz de surtar em meio ao tráfego, que ama Museus e um bom restaurante.

Era uma vez uma pernambucana que, mesmo estressada, sabe usar um chinelo no pé, esticar a canga na praia, ir a um boteco e tomar vários choppes.

É terra para todo gosto.

Confesso que sempre tive predileção pelo Rio. Aquela São Paulo fervilhante, com quilômetros de trânsito me fazia arrepiar. E, como a maioria dos que trabalham, estar na capital financeira da América Latina significa corre-corre e turismo, só cavando um buraco na agenda.

Eis que em minha temporada de ócio, tive a oportunidade de ser escoltada por paulistanos para conhecer uma Sampa fan-tás-ti-ca, que tem muito a ver comigo.

Nada como passear na Liberdade com um "local'

Nada como passear na Liberdade com um "local'

Batam palmas para a Liberdade e sua riqueza. O bairro oriental mostra a generosidade do nosso país e arrisco: explica o paulista trabalhador. Os olhinhos puxados deixaram a determinação como marca no povo. (Momento piada: comprei uns docinhos japoneses comom lembramça para mainha. Mofou. Ela comeu o troço verdinho. Deve ter achado que era wasabi).

Paulistano já nasce chique

Paulistano já nasce chique

Engraçado ter como ponto turístico um terração em um prédio comercial. O

Terraço D’Itália prova que aqui não é a praia a bússola, mas onde há money, money, money circulando.

Puxão de orelhas em quem nunca foi ao Masp. Ai, foi tão bom relembrar minhas viagens pela Europa e Nova York, sentar em um banco e admirar a exposição de retratos do Museu de Arte de São Paulo, com quadros de Van Gogh, Modigliani, Picasso (Aproveitem o almoço buffet de lá, em conta e super descolado). E ainda há o Museu da Língua Portuguesa – lindo, que nos ensina a respeitar os meu, cara, uai, oxe. Como somos ricos! O Museu do Ipiranga – onde a gente aprende que a malandragem brasileira estava no sangue dos bandeirantes que desbravaram o Sudeste. O  Anhanguera jogava cachaça no chão, acendia e dizia que conseguia tocar fogo na água. Era uma forma de ameaçar os índios e os forçarem a mostrar o caminho das minas de ouro. E ainda, saindo do metrô, consegue-se conferir gratuitamente a exposição com curadoria de Fernando Henrique Cardoso, com registros do metrô de Moscou.

Arrematando, um pastel de bacalhau com choppe no Mercadão, passeio na 25 de Março, com direito a diferentes sonoplastias e água de coco no Parque do Ibirapuera.

Lindo pôr-do-sol, né, Sá?

Lindo pôr-do-sol, né, Sá?

É essa é a SP que foge da balada, do escritório, que é bonita,  chique, mesmo que Narciso não ache. Mas, que precisa urgentemente de mais metrô e ônibus que funcione. É inadmissível que o paulistano não cobre algo tão necessário. A tal da acomodação brasileira…

Qualquer alma canta aqui, nesse Rio tão contrastante

Qualquer alma canta aqui, nesse Rio tão contrastante

Já no Rio, ah o Rio, ah o Rio…

Onde eu estendo a minha canga para ler o meu livro às 5h da tarde, no Leblon. Sou surpreendida pelo rasante de um helicóptero da Polícia Civil, com um tira segurando um fuzil apontado para a praia. Não há quem não se assuste. Esse mesmo helicóptero seria baleado em um confronto no morro. Essa “violência” se dissipa quando você sobe em um ônibus e é tão bem tratada pelo motorista.

Continua lindo e merece ser a sede da Olimpíada. Carioca sabe agitar. Sabe ser feliz. Como me disse um americano com boa vivência mundo afora: “Ninguém sabe mais curtir a vida do que o carioca”. E vamos sambar na Mangueira, olhando as estrelas. Terapia para qualquer depressão.

E, se existir a chance, uma esticadinha para o Sul de Minas, a carro, pela estrada Imperial, construída pelas mãos dos escravos para que Dom Pedro II e comitiva passasse. Aí, é muito pão de queijo e paradinhas estratégicas para tomar água mineral em fontes que surgem pelo caminho.

Ô, Brasil, bom sô!

outubro 7, 2009

É melhor ser alegre do que ser triste, em português ou chinês

Resgatando do baú, mais um post da série Deu no Diário Oficial – a seleção de textos meus publicados no Pernambuco, suplemento cultural do DO.

Com saudade da cerveja quente

Com saudade da cerveja quente

Num inverno cruel, ilhada pela neve, não resisti em espiar o carnaval do Galo da Madrugada pela Internet. Devido às maravilhas da tecnologia, pude ver as ruas apinhadas, sentir o cheiro de suor e o gosto da cerveja. Não consegui evitar a lágrima de saudade. A única coisa que aliviava a tristeza era saber que, enquanto todos queimavam a moleira, eu estava no ar condicionado terminando meu dia de trabalho. Eis que, para encerrar a noite, Asha, minha gerente, coça a cabeça, num gesto típico dos chineses de interrogação, e pergunta: “Você está triste por que não está aí?”. Termina a pergunta com uma cara de nojo.

Asha se recusava a entender o que levava tanta gente para a rua, por que eles pulavam como loucos e qual o prazer de dançar de forma desordenada. “Como uma nuvem de gafanhoto entrando na roça”, ela definiu. Não adiantou explicar a vibe da liberdade, da confraternização, de celebrar todas as classes unidas. A julgar que liberdade para os chineses pode ser “demais”, confraternização significa estar sentado a uma mesa redonda comendo até se empanturrar e “mistura”, algo extremamente perigoso, meus esforços seriam em vão.

Certa vez, li num semanário brasileiro, que o povo chinês era urgente por felicidade. A repórter acabara de chegar à China da Olimpíada e fizera tal leitura tamanha a extravagância para preparar a capital Beijing para receber a pira e abrir a cerimônia dos jogos. Imediatamente, veio a cena à mente do que seria urgência por felicidade. À brasileira, uma ladeira de Olinda repleta de gente pulando como pipoca. A Sapucaí tremendo de tanta gente sambando.

Felicidade é algo subjetivo. Claro. Mas, confesso que, para entender quando e como os chineses exprimem a sua alegria custou um pouco. Poucos dias depois, dava-se início ao Ano Novo Chinês. Aí, quem fez cara de interrogação fui eu.

Comida e música – É preciso entender a adoração do chinês pela comida. Ok, todo mundo gosta de uma tertúlia. Mas, confesso que nunca vi confraternização de empresa, universidade, família sem a famosa cerveja que esquenta o sangue.  Para o chinês, isso pode passar em branco. A possibilidade de a comida não acabar é mais que suficiente para ser a farra do ano.

Depois das refeições, sempre vem o fatídico karaokê. Nem pensem que as pessoas vão cantar de forma relaxada, entoar o brega do ano ou aquela música de mexer os quadris. Começa uma competição louca para quem tem o melhor desempenho, no maior estilo “Qual é a música?”, do Sílvio Santos, ou desses programas de competição de calouros. O ritmo, para completar, é a melancolia. A mulher que foi largada. O casamento proibido. E tome açúcar.

Claro que o meu tédio poderia ser compensado pelo belíssimo show de fogos de artifício e pelas curiosidades místicas que chegam com o Ano Novo Chinês. Em vez de saúde, deseja-se: “Fique rico”. No lugar do presente, uma sacola vermelha com dinheiro dentro. Com um detalhe: se você não quiser ser grosso, necessita carregar várias bolsas para entregar a qualquer “coleguinha” mais jovem que dispare: “Hong Bao Nao lai”. E tome golpe. Eu ainda pensava no carnaval democrático de Pernambuco.

Cada um no seu quadrado – Aí, lembrei, novamente, do comentário da repórter: “O chinês é um povo urgente por felicidade”. Como cabeça vazia, deve-se preencher de uma forma apropriada, inventei de fazer as conexões com o passado para justificar esse jeito chinês de ser.  A fixação pela comida? Claro! Anos de fome unidos ao orgulho nacional pela “melhor comida do mundo”.

O karaokê? Bem dê a César o que é de César. Os chineses, com tamanhos “ins”, “ons” na fala, só podiam ter uma afinação daquelas. Sem falar que a falta de quadril na genética também desfavorece o requebrado. Ora, convenhamos! Já a melancolia das canções deve ser para que essa nação, onde a regra geral é “casamento é uma coisa, amor, outra”, se reconheça nas letras cheias de sofrimento.

Perdão por toda essa liberdade “antropológica”. Desculpas pela ousadia em determinar “o que é bom, ou ruim”. Esse povo que urge por felicidade… Terminei a experiência do meu primeiro carnaval longe das ladeiras desconfiada que isso, nós, brasileiros, temos demais.

agosto 13, 2009

Sex & the City sem as pontes de Manhattan

Em vez de Nova York, enxergando o amarelo ocre do Líbano pela vitrine de um cabeleireiro

Em vez de Nova York, enxergando o amarelo ocre do Líbano pela vitrine de um salão de beleza

Dica de programinha para o domingo: assistir ao filme Caramelo, de Nadine Labak. Um Sex & the City das Arábias, ambientado no Líbano. Nas devidas proporções (e que proporções!), temos uma romântica Charllote que sonha em casar. Mas, não é mais virgem e não sabe como dizer isso ao noivo.

Uma Samantha, que não quer envelhecer, mas sem a liberdade de usufruir da solteirice – na verdade, divórcio – cuida dos filhos e cultiva a neurose de competir com as mais jovens em seleções para modelos de comercial de TV.

Uma Carrie às voltas com seu Mr. Big, casado e que nunca vai deixar a esposa.

Uma versão Miranda, de mulher sem vaidade. Com um detalhe mais apimentado: gosta de pessoas do mesmo sexo.

Nada de pubs e bares, a diversão da mulherada é se depilar, fazer a unha em um salão de beleza.

O interessante é que, diante do seriado americano, quando se percebe que as anglo-saxães estão bem mais à frente do tempo em que nós, latino-americanas vivemos – em termos de liberdade feminina -, Caramelo mostra uma opressão singela. Onde há espaço para risadas entre amigas. No entanto, as saídas são poucas. É preciso se virar para ser feliz em uma sociedade conservadora.

Assistam. Só nós mulheres sabemos a dor e a delícia de ser o que se é. ;)

julho 28, 2009

Infidelidade no Brasil: bichinhos, eles não sabem se proteger!

Mulher brasileira: vítima do próprio machismo

Mulher brasileira: vítima do próprio machismo

Lendo a revista Época da semana passada (ritmo preguicite deixa a gente lentaaaa, desatualizadaaaa), deparei-me com uma reportagem sobre o livro recém-lançado da americana Pamela Druckerman. Na Ponta da Língua traz um relato de como diferentes culturas reagem à traição. Não foi minha surpresa constatar que os americanos são os que mais se sentem culpados quando traem. Nem que os russos são os que consideram isso algo tão normal e até algo up-to-date.

O Brasil ficou de fora da pesquisa. Uma pena. Mas, aproveitei o ensejo para relatar uma experiência antropológica realizada num restaurante tailandês em Xangai.

Estavam à mesa eu, uma brasileira, uma irlandesa, um indiano, um sueco. Todos os estrangeiros com passaporte contendo o carimbo brasileiro. O indiano com vivência de alguns anos puxa o assunto. Convivendo com os coleguinhas de trabalho e escutando famigerados comentários durante o cafezinho (além de outras experiências bizarras que não vale aqui relatar), chegou à conclusão que no Brasil quem não trai mente para se socializar.

“É incrível como na terra de vocês quem é fiel à esposa tem vergonha disso”, comentou o executivo que fala mexendo o pescoço. O sueco endossou. A irlandesa só reforçou (Quem passou carnaval no Rio, xiiiii… imagina o que viu!).

Aí, eu fiz o seguinte questionamento: Meus caros, se a sua namorada chega a um bar e te vê beijando outra, quem ela mata?

O indiano: Eu, claro!

O sueco sem piscar: Não sobra nenhum pedacinho meu para contar a história!

A irlandesa, colocando-se no papel da traída, não hesita: Mataria o vagabundo!

Eu emendo o comentário: No Brasil, a mulher mata a vadia. O homem continua reinando absoluto. Afinal, bichinhos, não agüentam a tentação.

A brasileira ratificando: “É que tem mulher que sabe que os caras são casados e mesmo assim dão em cima” Ôoooo, pobres desprotegidos!

Pois é, meu bem, cada um tem o que merece.

maio 10, 2009

Filipinos – o que seria do luxo asiático sem eles?

aCanudo na mao, sonhos e passagem de aviao para um destino melhor

Canudo na mão, sonhos e passagem de avião para um destino melhor

Tá vendo essa turma aí em cima? São filipinos recém-graduados. Todos com o canudo e passagem na mão para abastecer o mercado de mão-de-obra barata da Ásia. Não importa. Jornalistas, engenheiros, enfermeiros, administradores. Alguns têm sorte e conseguem até se inserir no mercado na sua área de atuacção. A maioria segue um caminho distinto do que foi ensinado nas salas da universidade. Tornam-se babás, cozinheiros, faxineiros. Nada muito diferente do que acontece com latinos e asiaticos que imigram para Europa, Japão e América.

Para mim, as Filipinas eram um país onde se faziam as camisas Nike e Puma vendidas nos outlets por preços promocionais em Nova Iorque. E só.  Não sabia que era um dos paises com uma das agriculturas mais produtivas da Ásia. Que mesmo assim, ano passado, durante a crise dos alimentos, houve desabastecimento, já que o governo  nao conseguiu se planejar e vendeu tudo para a faminta China. Que tem praias lindas, como Boracai. Que as pessoas falam tagalo – uma mistura de palavras em inglês, espanhol e palavras do dialeto local. Além disso, todos falam inglês. Mesmo que com um jeito manhoso, quase miado.

Sim, o resquício da dominação inglesa fez com que todos comecem a estudar o idioma cedinho. E isso e um baita diferencial no mercado de exportação de mão-de-obra barata. Chique na China é ter empregada filipina. Para que uma madame teria o trabalho de aprender chinês e lutar com a empregada chinesa? Mas, uma coisa há de ser dita: além do inglês, há a grande vantagem de que os flipinos são extremamente limpos e organizados!

Quer respirar aliviado? Olhe se a cozinha do restaurante tem filipinos trabalhando.

Quer se divertir? Vá a um bar onde há uma banda filipina. Eles arrasam! Nasceram com o dom do canto dos olhinhos puxados e com um “certo gingado” herdado dos latinos que passaram por lá.

As Filipinas padecem do mesmo mal da violência, fruto da desigualdade social. Dizem que cada um povo tem o governo que merece.  Se você está lendo esse e-mail com uma ideia de que essa realidade nao nos diz respeito, é bom abrir os olhos. A situação no Brasil melhorou. Concordo. Mas, continuamos exportando brasucas cheios de sonhos e necessidade de encontrar respostas. Para o bolso, para os sonhos.  A prova disso é Washington, como mostra o colega Eduardo Oliveira, do blog Brazil com Z (http://oglobo.globo.com/blogs/brasilcomz/) . Lá o sotaque mineiro reina. Como o sotaque nordestino impera em salões de beleza em São Paulo, nas portarias do Rio de Janeiro.

Como nordestina, que sente na pele preconceito, nunca me dei o direito de diminuir esses sonhadores de mala na mão. E confesso que senti-me angustiada de ter de recusar uma candidata a vaga de lavadora de pratos. Ela era formada em Jornalismo, com especializacao em Ciências Políticas. Perdeu a vaga para uma filipina que so tinha o Ensino Medio, mas ja havia trabalhado em um restaurante.

Injustiças do mundo.