Maio 10, 2009

Filipinos – o que seria do luxo asiático sem eles?

aCanudo na mao, sonhos e passagem de aviao para um destino melhor

Canudo na mao, sonhos e passagem de aviao para um destino melhor

Ta vendo essa turma ai em cima? Sao filipinos recem-graduados. Todos com o canudo e passagem na mao para abastecer o mercado de mao-de-obra barata da Asia. Nao importa. Jornalistas, engenheiros, enfermeiros, administradores. Alguns tem sorte e conseguem ate se inserir no mercado na sua area de atuacao. A maioria segue um caminho distinto do que foi ensinado nas salas da universidade. Tornam-se babas, cozinheiros, faxineiros. Nada muito diferente do que acontece com latinos e asiatico que imigram para Europa, Japao e America.

Para mim, as Filipinas eram um pais onde de faziam as camisas Nike e Puma vendidas nos outlets por precos promocionais em Nova Iorque. E so.  Nao sabia que era um dos paises com uma das agriculturas mais produtivas da Asia. Que mesmo assim, ano passado, durante a crise dos alimentos, houve crise de abastecimento, ja que o governo  nao conseguiu se planejar e vendeu tudo para a faminta China. Que tem praias lindas, como Boracai. Que as pessoas falam tagalo – uma mistura de palavras em ingles, espanhol e palavras do dialeto local. Alem disso, todos falam ingles. Mesmo que com um jeito manhoso, quase miado.

Sim, o resquicio da dominacao inglesa fez com que todos comecem a estudar o idioma cedinho. E isso e um baita diferencial no mercado de exportacao de mao-de-obra barata. Chique na China e ter empregada filipina. Para que uma madame teria o trabalho de aprender chines e lutar com a empregada chinesa? Mas, uma coisa ha de ser dita: alem do ingles, ha a grande vantagem de que os flipinos sao extremamente limpos e organizados!

Quer respirar aliviado? Olhe se a cozinha do restaurante tem filipinos trabalhando.

Quer se divertir? Va a um bar onde ha uma banda filipina. Eles arrasam! Nasceram com o dom do canto dos olhinhos puxados e com um “certo gingado” herdado dos latinos que passaram por la.

As Filipinas padecem do mesmo mal da violencia, fruto da desigualdade social. Dizem que cada um povo tem o governo que merece.  Se voce esta lendo esse e-mail com uma ideia de que essa realidade nao nos diz respeito, e bom abrir os olhos. A situacao no Brasil melhorou. Concordo. Mas, continuamos exportando brasucas cheios de sonhos e necessidade de encontrar respostas. Para o bolso, para os sonhos.  A prova disso e Washington, como mostra o colega Eduardo Oliveira, do blog Brazil com Z (http://oglobo.globo.com/blogs/brasilcomz/) . La o sotaque mineiro reina. Como o sotaque nordestino impera em saloes de beleza em Sao Paulo, nas portarias do Rio de Janeiro.

Como nordestina, que sente na pele preconceito, nunca me dei o direito de diminuir esses sonhadores de mala na mao. E confesso que senti-me angustiada de ter de recusar uma candidata a vaga de lavadaora de pratos. Ela era formada em Jornalismo, com especializacao em Ciencias Politicas. Perdeu a vaga para uma filipina que so tinha o Ensino Medio, mas ja havia trabalhado em um restaurante.

Injusticas do mundo.

Maio 7, 2009

Esquecam a salada, a barrinha de cereal. Os seus problemas acabaram

 

Por baixo da burca, existe, sim muita sensualidade

Por baixo da burca, existe, sim, muita sensualidade

 

 

So quem tem quadril largo sabe a dor e a delicia de ser o que se e. Ontem, algo inedito na minha vida aconteceu. Pela primeira vez na vida, uma calca coube de imediato, sem precisar de ajustes. Nem na bainha!  Se o Brasil e a terra das curvas, eu ja nao sei. Por que entao eu sofro tanto para comprar jeans ai? Oras! E um tal de aperta na cintura, na coxa, so para a dita cuja passar pelos quadris.   

Para quem vem da China, onde a unica roupa que conseguiu comprar foi em uma loja de gravidas … Imaginem minha alegria!

Como para todo pe troncho, ha um sapato que cabe, descobri onde estou no padrao. O do Oriente Medio!

Eu ja sabia que o pessoal aqui e chegado na maxima ” E bom ter onde apertar”. Assistia as novelas na TV a cabo, quando ainda estava na China, e via que as atrizes simbolo sexual ostentavam um corpo que colocaria qualquer Adriane Galisteu de cabelo em pe. Nao que fossem feias, de forma alguma! Apenas elas nao se incomodam de passar por uma construcao e escutar certos elogios. So que, partindo do principio que o que esta na TV e quase utopico, a realidade das ruas e bem mais rechonchuda.

 

Mesmo com algumas gordurinhas

Mesmo com algumas gordurinhas

E dai? 

 

Entrei na academia de ginastica. Kibe, muito azeite e pao pita e tudo que um corpo arredondado nao precisa. Para quem rala para caber num biquini, surpreendi-me como as mocas daqui que, mesmo cobertas de preto, tem vaidade. Seja com pneuzinhos ou nao, estao la suando. Tudo bem que muitas nao tem coordenacao motora. Especulo que seja pela falta de liberdade que tiveram ao longo da vida de mexer com o corpo, descobri-lo. Mesmo assim, a professora esta la, sarada. E arabe. Sai da Academia vestida de preto. Para a musica da aula quando a mesquita chama para rezar (Pois e, mesmo fazendo abdominais, elas arranjam folego para as preces).

A arabe gasta uma nota com depilacao, estao sempre com as unhas vermelhas, a sobrancelha bem feita. O que elas podem mostrar, mostram mesmo. Ja soube que, todos os meses, elas fazem tratamento estetico e compram uma lingerie nova para o marido. Nao duvido. No principal shopping de Ras Al Khaimah, enquanto eu rodo para comprar um par de saltos por falta de opcao, as lojas de lingerie estao em todas as partes. Ha desde as romanticas, as apimentadas e as com muito brilho.

 

Um bom negocio aqui? Lingerie, maquiagem e salao de beleza

Um bom negocio aqui? Lingerie, maquiagem e salao de beleza

E ja que falamos em brilho, uma sugestao que dou a quem passear pelo Oriente Medio: parar numa loja de vestidos para casamento. Tudo dourado, com penduricalhos, lantejoulas. Bem, para os adeptos do minimalismo pode soar como cafona. Mas, ja dizem os populares, gosto cada um tem o seu. Sejam pelas curvas brasileiras, o espeto chines ou as bainhas arabes. 

 

Viva a diversidade! Nunca cansarei de dizer isso.

Abril 27, 2009

Sim, nos temos porco

 

Deu agua na boca?

Deu agua na boca?

 

Em tempos de Gripe Suina, nada como morar no Oriente Medio! Enquanto na China e nas Americas, do Sul ao Norte, o panico impera, nuca estive tao tranquila. Meus caros, nas terras onde se reza quatro vezes ao dia, presuntinho, mortadela, pastrami nem pensar! So de peito de peru. Nada como uma vida saudavel, han?

Ontem, por coincidencia, Vossa Alteza, Sheikh deste Emirado, veio conversar no escritorio. Uma das facetas da Autoridade e gostar de papear sobre o Isla. Se ele tem tempo, pode ter certeza que escolhe quem sera o proximo a ter uma aula sobre a vida do Profeta Maome e os mitos que o Ocidente cria sobre o Corao e seus mandamentos.

Aproveitando a pauta da midia internacional, achei de perguntar o porque da proibicao da carne de porco para os muculmanos. O Sheikh foi taxativo: e uma carne perigosa, suja e altamente transmissora de bacterias e doencas, senao cozinhada propriamente. Eu aguardava algo mais sublime, algum mandamento dos ceus. Mas, nao. Simples, assim.

Nao e a primeira vez que escuto a mesma justificativa. De fato, no Corao, nao existem apenas mandamentos que conduzem as almas a redencao. Mas, tambem, regras de higiene, como a obrigacao de homem e mulher se rasparem para eliminar os pelos e odores, os cinco banhos diarios, (Imagina, arabe e uma turma peluda danada, sob esse sol e sem desodorante… o Profeta resolveu colocar ordem na casa), comer apenas com a mao direita, ja que a esquerda serve para o asseio pessoal.

Obvio que surgem folclores. Ao fazer a mesma pergunta a um amigo sirio, este me respondeu que o porco tira o ciume de dentro do homem, ele perderia, assim, a capacidade de se revoltar quando um marmanjo se aproxima da filhota e, por consequencia, deixar de proteger a familia. 

O fato e que, meu caro, se voce vai sentar para fazer negocio com um habib, nao coma porco nas ultimas 24 horas. A turma aqui tem uma sensibilidade incrivel ao cheiro do suino. E como vegetariano que sente a chegada de um carnivoro a distancia. Quantas vezes, ao tomar o taxi com os meus amigos seguidores de Ala na China (onde as pessoas comem porco adoidado e nao escovam os dentes), eles pediram para descer devido ao bafo do motorista!

Mas, ainda um detalhe: Nos Emirados, e possivel, sim, comer um baconzinho. Naquelas palmeiras fantasticas, obras do ser humano, onde o mar foi aterrado. La, nao e Terra Santa. Entao, ta liberado! Ta tudo liberado! E a cervejinha tambem. Os alemaes  e americanos que fiquem felizes.

Abril 24, 2009

De burca, biquíni ou saião, todas querem a mesma coisa

As mocinhas aí fazem a fila andar e estão nem aí. Queria ter o poder das Mosuo!

As mocinhas aí fazem a fila andar e estão nem aí.

Hoje, Sexta, dia de folga, aproveitei para me bronzear na laje. Isso mesmo. Biquinão, bronzeador, Ipod e toalha. Subi à cobertura da vila onde moro (um tipo de habitação bem comum aqui, são casas com mais de dois andares, parede colada com a do vizinho e isoladas por um só muro) para aproveitar o dia de céu azulzão.

Aqui, tem praia onde dá para usar biquíni. Infelizmente, minha casa fica numa área árabe, então, pezinho na areia sem burca nem pensar! Como nos bons tempos da minha vida no Recife, levei um livro para me entreter enquanto torrava. Escolhi O Reino das Mulheres, de Ricardo Coler. Este argentino jornalista, médico e escritor desbravou o mundo das chinesas Mosuo, minoria étnica que vive em Yunnan, na China.

Infelizmente, não tive como ir lá, conferir com meus olhos um dos últimos matriarcados da Terra. Sim, meus caros, existem povos onde a mulher é quem manda. Nesta leitura, que recomendo a todos, o autor mostra como nessa comunidade a violência é considerado algo baixo e vil, ciúme é mesquinhez de alma, possessividade, nem se fala.

As Mosuo não casam. Vivem eternamente na casa da mãe. Quando a matriarca morre, a filha mais velha assume o papel de ser a chefe provedora do lar. Elas administram, dão a ordem, os homens apenas executam o que há de braçal, de força. Afinal, o tônus muscular masculino é algo incomparável.

Elas escolhem os homens com quem dormem. Os cavalheiros batem à porta delas à noite e elas dizem se os querem ou não. No final, vão embora. São apenas amigos. Se são alçados à categoria de namorados, aí, a fidelidade é exigida. Mesmo assim, se o gorro do dito cujo é visto pendurado na porta de outra moça, nada de gritaria, rolo de macarrão na mão e rebuliços. Para essas chinesinhas, colocar nas mãos de um homem a razão de viver é algo impensável. A vida sempre continua. A fila sempre anda.

Os filhos não conhecem os pais. Quando engravidam, mal sabem que foi o responsável já que, como vocês podem ver, nesse tipo de casamento andante, os parceiros são muitos. A figura masculina na casa são os tios, ir

Que devem torrar aí dentro, ai, isso devem!

Que devem torrar aí dentro, ai, isso devem!

mãos.

Aí, levantei-me para olhar a vista. Enquanto os rapazes jogavam beisebol, suas esposas, de preto completo, molhavam os pezinhos na água. Parei uns minutos para refletir sobre a minha realidade, a que eu acabava de descobrir pelas páginas e a que eu via.

Normalmente, nós, ocidentais costumamos ter uma pena danada das moças de burca. Confesso que ainda não tive a chance de bater um papo cabeça com uma local, adepta do véu. Queria saber mais sobre o que elas pensam. No entanto, lembro-me de uma vez questionar um amigo por que a mãe dele insistia em cobrir todo o rosto, se ela poderia apenas envolver os cabelos com o véu. A resposta: “Ana, isso para ela não é sofrimento. Ela se sente valorizada, porque meu pai quer privá-la de ser exposta. Ao mesmo tempo, ela esconde o que há de melhor, já que não interessa a ela exibir sua beleza a quem pouco vai lhe agregar”.

Lembro-me muito de um amigo germano-indiano, que esteve no Recife. Não havia ainda partido para meu périplo pelo mundo. Estava para decidir entre China e Índia. Comentei que um dos motivos que optaria pelo primeiro país seria a liberdade que não teria no segundo, conhecido por ser um local onde a cultura é machista.

A resposta: “Ana, é uma outra forma de encarar a mulher. Primeiro, para nós, a ocidental é tratada como uma coisa, um objeto quando tem seu corpo exposto para ser, à primeira vista, o seu cartão de visita. Quando deveria ser valorizada pela sua alma, seu caráter. Segundo, o que pensamos é: Se homem e mulher saem de casa, quem cuida dos filhos? Vocês não percebem que a indiana, dona-de-casa, não é considerada um encostou ou algo inferior, como no Ocidente. Ela é valorizada por ser peça fundamental na família”

Sempre achei a cultura brasileira injusta conosco, seres do sexo feminino. Canta-se uma liberdade que não existe. Podemos, sim,usar minissaia, top, barriguinha de fora. Só que, ao meu ver, somos tratadas como bens sexuais pela mídia, pela sociedade. Daí essa obsessão da brasileira com plástica, fitness. Somos um país onde se lê pouco e se malha muito. Nada contra a vaidade (Também, que fique claro, não sou uma daquelas nerds horrorosas e despeitadas!), nada contra o belo, mas conteúdo é preciso. Amém, existem mulheres na terrinha que sabem dosar bem isso. Mas, a maioria ainda precisa saber lidar melhor com essa questão.

Que a brasileira devia mexer mais o cérebro, ah, isso devia!

Que a brasileira devia mexer mais o cérebro, ah, isso devia!

Não acredito que existam verdades absolutas. Continuo respeitando as adeptas da burca e, sinceramente, não me inspiram pena. O que é injusto é a falta de opção. É quando vivem em países onde, se querem ter o direito de ser diferentes, são punidas. Isso, sim, me dá pena. E que fique claro: os apedrejamentos que são tão alardeados na mídia para aquelas que desistem do véu não existem nos Emirados, tampouco estão determinados pelo Corão.É o mau uso das palavras de Alá para fins políticos em países como o Afeganistão.

Mas, aí isso é assunto para um outro post.

Queria terminar com a frase de uma das chinesinhas Mosuo, escrita no livro de Coler. Ao ser perguntada de que tipo de homem gostava, a matriarca, do alto do seu poder, respondeu: “O que presta atenção em mim, cuida de mim e me protege”. E quem não gosta? Sejam as moças dos olhinhos puxados, as de preto ou as de biquíni. Cada uma no seu galho. Mas, gostando do mesmo tipo de macaco.

Por que os homens não aprendem?

Abril 11, 2009

Paquera no Oriente Medio: Ah! Se os celulares falassem …

 

Essa e para quem acredita que nao existe azaracao por essas bandas de ca.

Desde que a Internet e o celular apareceram no mundo, as coisas mudaram. Disso ninguem duvida. O que talvez ninguem imagine e como a tecnologia deu uma forca aos habibs e olhinhos puxados a descolarem uma companhia.

Na China, uma pesquisa publicada no China Daily News  recentemente mostrou que mais de 70% dos jovens usam ferramentas de bate-papo como o msn e o ICQ para se aproximar dos alvos de paquera. Numa sociedade conservadora, onde mesmo sem a burca e as limitacoes impostas pela religiao, os pais continuam definindo quem sera os futuros maridos e esposas dos rebentos, essa tem de ser a ponte. Alem do que o chines acredita que essa “timidez” e uma forma de respeito. Gabam-se de nao serem atirados como os ocidentais. Um detalhe interessante: na China, o ICQ e mais popular que o messenger. Talvez porque, no lugar da foto, eles exibem um bonequinho virtual, que pode ser alto, loiro, com olhos azuis, do jeito que o cidadao sonha ser. Isso e bem peculiar uma vez que os chininhas se acham feios e sonham em ter olhos grandes. Basta brechar qualquer tela de bate papo. Nunca vi tanto galego alto naquela terra.  Pobre da chinesinha que se iludir.

Ja no Deserto, a febre e o Bluetooth dos celulares. Descobri isso quinta-feira passada, o fim-de-semana dos arabes (Sim, aqui a folga e na quinta e na sexta, porque, segundo o Corao, foi quando Deus descansou depois de criar o mundo). Estava devorando um kibe com salada fatoush na praca de alimentacao do principal shopping da cidade, quando percebi que na tela do meu celular aparecia a solicitacao para receber um arquivo. Meu aparelho e programado automaticamente para o Bluetooth e eu so descobri aqui! Essa ferramenta permite o envio de fotos, videos, musicas de outros aparelhos que tambem possuem essa tecnologia.

Enfim, aceitei e baixei o arquivo. Algum habib na area mandou uma musica arabe. Nao dei bola. O carinha nao desistiu e mandou uma animacao cheia de coracaozinho. Eu, nem ai.  Ele insistiu. Mandou uma foto do lugar onde estava sentado. Nem virei o pescoco. Eis que descobri que eram varios habibs! Eles comecaram a mandar fotos. Todos reprovados!  Mesmo assim, ainda recebi uma enxurrada de videos, fotos, musicas e ate convite para sair para jantar. Terminei o lanche com o ego mais que amaciado e comprovando o que as mulheres viajantes falam: os arabes,  assim como os italianos e os gregos, sao os caras mais insistentes do planeta!

E mais um detalhe: o assedio nao e so com quem usa cabelos ao vento. Meus amigos habibs da China ja haviam me dito que, na Arabia Saudita, onde a mulherada cobre ate o olho, e um tal de SMS com mensagens nada, digamos, islamicas para la e para ca.

Vai nessa. Ninguem sabe o que esta por baixo do pano.

Mah salahm!

Abril 7, 2009

Cerebro de carneiro para ficar criativo, lingua para ficar falante

Habibs tocando citra

Habibs tocando citra

A comida e uma delicia. Cuidado so se seu chefe quiser agradar

A comida e uma delicia. Cuidado so se seu chefe quiser agradar

Esse negocio de ter morado na China me fez ser escolada para algumas coisas. Uma delas e a tal da etiqueta a mesa. Em termos de Asia, a questao nao e saber usar talheres. Mas, principalmente, estar pronta para retribuir a oferta de iguarias comendo e exprimindo um: Delicia!

Nesta semana, tive a chance de participar de um autentico banquete arabe. Digo autentico porque ja havia jantado com meus amigos arabes – sentadinha no chao, com as pernas cruzadas, sem sapato, comendo com a mao direita (a mao esquerda e supostamente mais suja, porque, segundo o Corao, deve ser a que se usa para a higiene pessoal), jogando os ossinhos na toalha e, no final, soltando um “Ala, obrigada!”. Ah! Tambem tem que lavar a boca e o rosto depois de fartar com a comida. A questao e que os meus habibs sabiam das minhas limitacoes gastronomicas. Meu chefe local, nao.

Antes, uma nota: Sim, meu chefe usa a kandurra (a batinha branca) e o veuzinho na cabeca. Como os sheiks. A recepcionista filipina do escritorio casou com um jordaniano. Virou muculmana, passou a rezar para a Meca e todo o pacote que acompanha casar com um muculmano. O chefe resolveu celebrar com um almoco no deserto. Fomos todos. Aqui, trabalha gente do Sri Lanka, Siria, Alemanha, Brasil, Filipinas e Emirados. Joia.

Chegando la, apos uma partidinha de futebol, entramos no salao. Uma sala coberta de veludo vermelho nas paredes, tapete carmim, almofadas. Ah, claro! A foto de Vossa Alteza, Khalifa Bin Zayed Al-Nahyan, president e dos Emirados. Homens de um lado. Mulheres do outro. Na esteira, dois paneloes com arroz, carneiro e frango. Eu amo comida arabe! Acho que, em outra encarnacao, usei burca.

Eis que, o chefe, querendo mostrar hospitalidade (mas com uma pitada de zoacao), comeca a oferecer as partes mais exoticas do carneiro. – Ana, toma um pedaco do cerebro. Para voce ficar criativa! Chefe manda, a gente obedece. Olhei aquela carninha fofinha (Ah! Para quem comeu tanto troco na China, vai…), lept! Gostoso, viu? Ai, ele joga a lingua no meu prato. “Para fazer voce ficar falante”. “Chefe, ja falo demais”. A vitima foi a brasileira do meu lado. Olhei para a coitada engolindo aquilo, enguiando, segurando o vomito e nao me contive em me lembrar de situacoes semelhantes que passei na China. Ai, veio a orelha. Chefe pergunta: “Quem vai querer?”. Levantei-me e fui lavar a boca. Ta bom,ne?

Terminada a comilanca, docinho arabe com nozes folheadas. Pedaco do ceu! E muita musica! Cada habib com seu instrumento. Ta vendo que da para ser feliz mesmo sem cachaca e biquini?

Futebol para comecar. Jogar de kanudrra nao deve ser facil

Futebol para comecar. Jogar de kanudrra nao deve ser facil

Mah Salahm!

Abril 5, 2009

Nova vida no Oriente Medio

Ras Al Khaimah - desenvolvimento sem poluicao e com gosto de kibe

Ras Al Khaimah - desenvolvimento sem poluicao e com gosto de kibe

Assalamu alaikum!
Esta criatura que vos escreve digita do meio do deserto. Mais precisamente em Ras Al Khaimah, Emirado Arabe a uma hora de Dubai. Ja deu para perceber que digito de teclado arabe, sem acentos e cedilhas. Comeco mais um capitulo do meu periplo pelo mundo.
Ha um mes, fui convidada para trabalhar numa empresa de trade, que opera com commodities brasileiras e chinesas, alem de possuir varios investimentos junto a projetos brasileiros. Nao esqueci da China. A diferenca e que, agora, aqui e minha casa. A China, um territorio aonde irei periodicamente tocar meus projetos por la. Nao desisti do Dragao. A diferenca e que agora tenho tambem um camelo. Tao sedento quanto.
Isso aqui e fascinante. Pensar que os Emirados, incluindo Dubai, eram um deserto so ha 40 anos. Que o Sheik, Sua Alteza Esclarecida, fez o dinheiro do petroleo render e transformou isso aqui num paraiso onde gente da India, Bangladesh, Paquistao, Filipinas e, nao se enganem, ocidentais buscam vida e dinheiro, simplesmente, encanta-me.

Ras Al Khaimah lembra meu Recife. Quentinha, tem mangue, ceu azul, mar e montanhas belas que, no inverno, chegam a abrigar neve. As coisas sao um pouquinho mais conservadoras que Dubai. Um pouquinho. Nao me sinto confortavel em usar minissaia na rua. Mas, corro na praia todos os dias e ninguem enche meu saco. Claro que existem certos cuidados que meus santos amigos habibs da China me ensinaram: Nunca encare um arabe nos olhos. Entao, e so caminhar olhando para o nada.
As leis sao severas para quem mexe com mulher. Basta uma se sentir desrespeitada para ligar o 190 a e a policia bater. Se for estrangeiro, deportacao na hora. Os locais, sinceramente, no maximo olham. Deevem ter suas quatro esposas, estao satisfeitos. Os indianos e paquistaneses e que, as vezes, excedem-se. Estao no batente ha anos, enquanto as esposas estao na terra natal. Mesmo assim, nao me sinto nenhum um pouco amendrontada. Ate o problema do batedor de carteira nao existe, como na China.

Esse e-mail foi apenas para contar a novidade. No proximo, cenas do meu primeiro banquete arabe.
Vou mudar o nome do meu blog para Ana domando o Dragao e o Camelo. Estou aberta a sugestoes.
Ma Salam! Ala esteja com todos!

Março 21, 2009

Voltando aos meus negocios na China

Se Brad pode, eles tambem podem. Ou nao?

Se Brad pode, eles tambem podem. Ou nao?

Amigos,

perdao pela demora em mandar um novo post. Depois de dois meses de ferias no Brasil, bateu aquela preguica, recheada de banzo e estimulada pelo frio danado da  China. Sair do calorzinho para esse inverno umido e chuvoso e uma formula maravilhosa para sugar as minhas energias.

Pois bem, nesse post, vou enumerar os fatos que fazem com que a sua ficha caia que voce esta nessa esplendida China:

- Voce assiste a TV e eis que o entrevistado tira catota em pleno ar;

- Voce pode fazer massagem de duas horas, corpo inteiro, por R$ 20!

- Voce encontra seus conhecidos locais e, em vez de: Saudades! Como voce esta?, comentam: “Voce engordou!”

- Voce pode sair as 3 da matina com Ipod no ouvido e sem o menor medo

- Voce pega um taxi, da uma gorjeta de R$ 5 para que o motorista ajude com as malas, e o cara ainda vem barganhar mais.

- O pulmao pede arrego por causa da poluicao

- A cerveja ataca seu figado como nunca

- Voce lembra que tem de conferir a data de validade de todas, Todas, as latas, sob pena de colocar seu almoco a perder.

- Relembra como pegar um taxi pode ser uma acao perigosa, dependendo do seu estado de espirito, voce quer voar no pescoco desses fdp.

Mas, preciso ressaltar que as coisas estao melhorando. Nao sei se por que acabaram de sair do Ano Novo Chines (a unica folga dos coitados) ou por causa da crise, notei um chines mais humilde, humanos, dipostos a ajudar. Tanto que a proporcao de taxistas fdp caiu de 4 a cada 5, para 2 a cada 5! Are baba! Depois do sucesso de Negocio da China (Duvido que algum jargao em chines tenha colado na boca do povo), o lance e a India.

Grande abraco!

Janeiro 17, 2009

Oba, oba, oba cada um com o seu yakissoba

Vai um intestininho ai?

 

A Olimpíada passou. O frenesi passou. O Mc China também. Pois é, um simples sanduíche “jogada de marketing” merece ser comentado. A mistura de pão com carne não chegou em solo chinês. Ficou no Brasil. E tão pouco chega perto do que se come na terra onde cão pequinês no prato é coisa cara. Esqueçam. Aquela rua famosa do bairro do Espinheiro não representa o mundo gastronômico do Império do Meio.

Leitores, vocês não estão aqui para ler receita ou crítica gastronômica (Ops, chineses não levem essa palavra “crítica” ao pé da letra). Eu sei. Mas, a relação que o chinês tem com o prato é algo que merece ser comentado. E advertido. Aqui, existe um ditado: “Não experimente tirar comida do prato de chinês. Esse povo aparentemente pacífico consegue se unir para derrubar qualquer imperador ou ditador”. Parece razoável, certo? Só que eu arriscaria extender essa máxima extremista para algo além da fome. Para o orgulho.

A comida chinesa é um patrimônio. Por ela, os chineses vão do ódio ao amor. Eu preciso dizer que, qualquer convite para uma refeição típica, para mim, é algo desafiador. Meu primeiro churrasquinho chinês – descrição da cena: “Minha amiga chinesa pega um pé de galinha, com direito a unha, do espeto, coloca a boca e diz “delícia!”". Meu primeiro jantar com uma família chinesa – descrição da cena: “A dona-da-casa quer demonstrar hospitalidade e joga na minha tigelinha o pedaço da gordura amarela do peixe. Eu tenho de comer. Não passa na garganta. O resto vocês imaginam o que aconteceu”.

 Não quero gastar palavras e seu tempo, leitor, estimulando preconceitos. Todo mundo sabe que na China se come escorpião, sapo (esses são comprados vivos no supermercado. O cliente aponta qual ele quer, o funcionário coloca numa rede e leva para o caixa) e outras coisas. Não faça cara de asco. Lembre que no nosso Brasil come-se calango, javali, rã e outras carnes exóticas. É só costume.

 E há de se admitir: a culinária chinesa é tão diversificada quanto as etnias que vivem no país, proporcional ao tamanho do seu imenso território. Mas, vamos combinar: sou uma humana, tenho direito a não gostar de certas coisas, Ok? Não para os chineses. Não comer comida chinesa ou simplesmente dizer que você não gosta de apenas um prato é tão criminoso quanto xingar Mao Tse Tung. No mínimo, você será taxado de inimigo ou terá cometido um suicídio social. Que estejam todos os advertidos: esse é o preço para ter amigos chineses.

Eu fui avisada a tempo. Antes de embarcar para o roteiro de Marco Polo, imigrantes chineses no Brasil disseram para que eu não ousasse deixar comida na tigela. Tem que comer o que se colocar no prato. Eu não imaginava quão sério isso é. Cenas recentes da minha vida: Saio para jantar com a minha housemate chinesa. Vamos a um restaurante local. Eu me antecipo e peço logo um prato que é uma mistura de amendoim com legumes e frango, de gosto familiar. Durante a conversa: “A esposa do meu chefe é uma idiota. Insuportável. Para começar, ela não come comida chinesa. Existe alguém no mundo que preste e não coma comida chinesa?”. Sim, eu gosto de arroz frito, rolinho primavera e outros pratos.

 Existem comidas deliciosas. Mas, reservo-me ao direito de não gostar de alguns pratinhos, oras! Mas, desistam. Quer fazer negócio com olhinhos puxados? Ofereça um jantar chinês ou coma o que eles colocarem na mesa. Sim, depois que você acertar o contrato, eles vão te levar para uma sala com mesa redonda (significa união, ciclo sem fim, elo inquebrável) e vão te servir as iguarias locais. E você tem de comer. Felizmente, sempre tem comidinhas gostosas. Se não gostou? Problema seu. O chinês não te dá esse direito. Ponto. A comida local é algo que eles querem proteger dentro por uma Grande Muralha.

A sobremesa mais popular nos fastfoods locais é o pastel de Belém. Isso mesmo. Esse docinho com gosto de infância em Portugal e Pernambuco é comido vorazmente por aqui. Chegou por Macau, a colônia chinesa que foi dominada pelos “tugas” e se espalhou entre os comunistas. Claro que não perdi a chance de comentar que isso foi uma criação lusitana. Resposta? “Eles não teriam competência para criar algo tão gostoso. Isso foi criado por chinês!”, me disse a minha ex-chefe. À chefe a gente não responde, né?. Mas, se eu pudesse…

 Então, agora, você já sabe. Se um amigo chinês perguntar se você gosta de comida chinesa. Diga que sim, que ama. Se ele estender um convite, haverá pratos deliciosos. Se você cruzar com algo que você não gosta, não vale fazer cara feia, tá? Mas, vamos às ponderações: como você reagiria se alguém dissesse que a brasileira é feia? Pois é, cada um com sua Cidade Proibida.

 Aproveitando o espaço, quero terminar falando do saldo positivo da Paraolimpíada. É um acalanto para o coração ver chineses reconhecendo a coragem e o sucesso de seus para-atletas. Ver Beijing adaptada para cadeirantes e deficientes. A China, como foi isolada por uma bolha por muito tempo, não conseguiu se acostumar com o diferente. E isso inclui pessoas especiais.

Lembro-me de ter colocado no colo uma bebezinha com Síndrome de Dow e minhas amigas comentarem: “A mãe dela deveria deixá-la escondida dentro de casa”. Num lugar onde se pode ter um único filho e o aborto é liberado, onde há essa mistura de pressão e liberdade, certas coisas pareçam ilógicas. Não importa. Como não podia ser diferente, a Paraolimpíada trouxe uma chuva de medalha. Tenho a certeza que muitas coisas já mudaram e vão mudar. Basta os chineses terem orgulho. E é por isso mesmo que a relação deles com o prato nunca vai mudar.

Ps: yakissoba é um prato japonês, que os chineses copiaram. Plágio, plágio. Só usei no título pela sonoridade :)

Janeiro 1, 2009

Feliz Ano do Touro!

Não virei chinesa. Não sou fã de plágio. Mas, ao ler uma das crônicas de Fernanda Young, essa criatura que anima as minhas tardes de sábado na China, resolvi inspirar-me novamente nela para desejar os meus votos de um 2009 de céu azul e Sol brilhante capazes de acalmar qualquer dor na alma.

 

Bem, usando- me como exemplo, gostaria de sugerir que todos juntem os “nãos”, os “duvidos” e os transformem em tijolos. Tijolos para construir a sua estrada. Seja onde ela for parar. Desde que seja um destino chamado felicidade. Aí só vai faltar a coragem de caminhar.

 

Há um ano, ouvi muitos “nãos” e “duvidos”. Minha estrada me levou à Terra do Dragão. E descobri que não há nada mais irritante do que a covardia dos infelizes, dos que querem ancorar as suas pernas ao chão. Não acham?

 

Um feliz 2009, feliz Ano do Touro – ano em que quem trabalhar vai ganhar dinheiro, Inchalá! - Xin nian Kuai le!

Deixa o Ano do Touro chegar!

Deixa o Ano do Touro chegar!