
A Olimpíada passou. O frenesi passou. O Mc China também. Pois é, um simples sanduíche “jogada de marketing” merece ser comentado. A mistura de pão com carne não chegou em solo chinês. Ficou no Brasil. E tão pouco chega perto do que se come na terra onde cão pequinês no prato é coisa cara. Esqueçam. Aquela rua famosa do bairro do Espinheiro não representa o mundo gastronômico do Império do Meio.
Leitores, vocês não estão aqui para ler receita ou crítica gastronômica (Ops, chineses não levem essa palavra “crítica” ao pé da letra). Eu sei. Mas, a relação que o chinês tem com o prato é algo que merece ser comentado. E advertido. Aqui, existe um ditado: “Não experimente tirar comida do prato de chinês. Esse povo aparentemente pacífico consegue se unir para derrubar qualquer imperador ou ditador”. Parece razoável, certo? Só que eu arriscaria extender essa máxima extremista para algo além da fome. Para o orgulho.
A comida chinesa é um patrimônio. Por ela, os chineses vão do ódio ao amor. Eu preciso dizer que, qualquer convite para uma refeição típica, para mim, é algo desafiador. Meu primeiro churrasquinho chinês – descrição da cena: “Minha amiga chinesa pega um pé de galinha, com direito a unha, do espeto, coloca a boca e diz “delícia!”". Meu primeiro jantar com uma família chinesa – descrição da cena: “A dona-da-casa quer demonstrar hospitalidade e joga na minha tigelinha o pedaço da gordura amarela do peixe. Eu tenho de comer. Não passa na garganta. O resto vocês imaginam o que aconteceu”.
Não quero gastar palavras e seu tempo, leitor, estimulando preconceitos. Todo mundo sabe que na China se come escorpião, sapo (esses são comprados vivos no supermercado. O cliente aponta qual ele quer, o funcionário coloca numa rede e leva para o caixa) e outras coisas. Não faça cara de asco. Lembre que no nosso Brasil come-se calango, javali, rã e outras carnes exóticas. É só costume.
E há de se admitir: a culinária chinesa é tão diversificada quanto as etnias que vivem no país, proporcional ao tamanho do seu imenso território. Mas, vamos combinar: sou uma humana, tenho direito a não gostar de certas coisas, Ok? Não para os chineses. Não comer comida chinesa ou simplesmente dizer que você não gosta de apenas um prato é tão criminoso quanto xingar Mao Tse Tung. No mínimo, você será taxado de inimigo ou terá cometido um suicídio social. Que estejam todos os advertidos: esse é o preço para ter amigos chineses.
Eu fui avisada a tempo. Antes de embarcar para o roteiro de Marco Polo, imigrantes chineses no Brasil disseram para que eu não ousasse deixar comida na tigela. Tem que comer o que se colocar no prato. Eu não imaginava quão sério isso é. Cenas recentes da minha vida: Saio para jantar com a minha housemate chinesa. Vamos a um restaurante local. Eu me antecipo e peço logo um prato que é uma mistura de amendoim com legumes e frango, de gosto familiar. Durante a conversa: “A esposa do meu chefe é uma idiota. Insuportável. Para começar, ela não come comida chinesa. Existe alguém no mundo que preste e não coma comida chinesa?”. Sim, eu gosto de arroz frito, rolinho primavera e outros pratos.
Existem comidas deliciosas. Mas, reservo-me ao direito de não gostar de alguns pratinhos, oras! Mas, desistam. Quer fazer negócio com olhinhos puxados? Ofereça um jantar chinês ou coma o que eles colocarem na mesa. Sim, depois que você acertar o contrato, eles vão te levar para uma sala com mesa redonda (significa união, ciclo sem fim, elo inquebrável) e vão te servir as iguarias locais. E você tem de comer. Felizmente, sempre tem comidinhas gostosas. Se não gostou? Problema seu. O chinês não te dá esse direito. Ponto. A comida local é algo que eles querem proteger dentro por uma Grande Muralha.
A sobremesa mais popular nos fastfoods locais é o pastel de Belém. Isso mesmo. Esse docinho com gosto de infância em Portugal e Pernambuco é comido vorazmente por aqui. Chegou por Macau, a colônia chinesa que foi dominada pelos “tugas” e se espalhou entre os comunistas. Claro que não perdi a chance de comentar que isso foi uma criação lusitana. Resposta? “Eles não teriam competência para criar algo tão gostoso. Isso foi criado por chinês!”, me disse a minha ex-chefe. À chefe a gente não responde, né?. Mas, se eu pudesse…
Então, agora, você já sabe. Se um amigo chinês perguntar se você gosta de comida chinesa. Diga que sim, que ama. Se ele estender um convite, haverá pratos deliciosos. Se você cruzar com algo que você não gosta, não vale fazer cara feia, tá? Mas, vamos às ponderações: como você reagiria se alguém dissesse que a brasileira é feia? Pois é, cada um com sua Cidade Proibida.
Aproveitando o espaço, quero terminar falando do saldo positivo da Paraolimpíada. É um acalanto para o coração ver chineses reconhecendo a coragem e o sucesso de seus para-atletas. Ver Beijing adaptada para cadeirantes e deficientes. A China, como foi isolada por uma bolha por muito tempo, não conseguiu se acostumar com o diferente. E isso inclui pessoas especiais.
Lembro-me de ter colocado no colo uma bebezinha com Síndrome de Dow e minhas amigas comentarem: “A mãe dela deveria deixá-la escondida dentro de casa”. Num lugar onde se pode ter um único filho e o aborto é liberado, onde há essa mistura de pressão e liberdade, certas coisas pareçam ilógicas. Não importa. Como não podia ser diferente, a Paraolimpíada trouxe uma chuva de medalha. Tenho a certeza que muitas coisas já mudaram e vão mudar. Basta os chineses terem orgulho. E é por isso mesmo que a relação deles com o prato nunca vai mudar.
Ps: yakissoba é um prato japonês, que os chineses copiaram. Plágio, plágio. Só usei no título pela sonoridade
5 Comentários
Janeiro 19, 2009 às 4:06 pm
Adorei o texto Aninha!!! Me fez lembrar amigas chinesas que conheci na França. Elas adoravam me convidar p jantar!! hahaha
Mas sabe, acho q a tolerancia deles quanto ao gosto do estrangeiro a comida chinesa muda (ao menos um pouco) quando eles saem do país, encontram outras culturas e vêem que existem outros sabores e gostos além do chines (apesar de eles nuuuuunca, nunquinha abandonarem menus chineses diários para se deliciar a culinária do país para o qual se mudaram).
Era uma das críticas dos profs franceses aos meus colegas de curso. “Se vcs querem conhecer a cultura francesa, precisam ao menos provar o que frances come”. Eu nem preciso dizer o q eles respondiam, né?!
xero
Janeiro 19, 2009 às 4:48 pm
Pois é, Ju. Olha só o que eu tenho de aturar… Já escutei até chinês dizendo que comida brasileira fedia! Pense num povo complicado :^(
Fevereiro 5, 2009 às 1:31 pm
Ana,
estou escrevendo a receita e os benefícios da geléia de pé de galinha(colágeno)para um blog de comunicação interna na empresa em que trabalho. Outro dia ouvi ou vi uma reportagem que falava sobre a preferência das mulheres chinesas por este prato (estes pés de bruxas). Você tem alguma informação a respeito? o porque desta preferência?
um abraço,
Fevereiro 22, 2009 às 4:00 pm
Gosto mais do yakisoba japones para falar a verdade, o macarrão é mais fininho… hehehehe
adorei seu blog, beijooooos
Março 18, 2009 às 2:35 pm
em salvador tem um restaurante chines natural. os donos sao chineses e fazem questao de fazer pratos que passam anos-luz das gororobas gordurentas e pelancudas que os restaurantes chineses no brasil costumam servir.