Insights sobre a Líbia. Quero minha irmã de volta

É essa criatura bizarra que comanda a Líbia há mais de 40 anos

A Líbia já foi tema de um post neste blog falando de amenidades como um casamento típico do lugar. Agora, diante da pauta do mundo, esse país me inspira comentários. Na verdade, não saiu da minha cabeça desde a última sexta-feira.

Abro o jornal e vejo o título da reportagem: 24 mortes na Líbia. O que eu temia aconteceu. A onda de protestos que tomou conta da África árabe chegou à Líbia, país governado por Muammar Al-Gaddafi ou Khadafi como alguns jornais preferem chamá-lo.

Essa criatura maluca, cheia de botox e completamente alheio aos direitos humanos, está no poder desde 1969 e se tornou uma das criaturas (sim, uma criatura. Olha a cara dele: parece o Cauby Peixoto, não é?) non gratas do mundo ocidental, depois que se recusou a entregar à Justiça dois líbios apontados como culpados pelo atentado de Lockerbie (leia mais aqui).

Desde então, a Líbia vem sofrendo sanções. Teve, inclusive, o espaço aéreo fechado (leia-se: nenhum avião pode decolar ou pousar sob pena de ser abatido – o que a gente sabe que não acontece na prática. Minha irmã não ia ter chegado lá de jegue). No entanto, como o solo líbio é cheio de petróleo, o mundo finge que não enxerga certas coisas. Inclusive, em 2008, o filho de Gaddafi, casado com uma prostituta, andou maltratando a empregada na Suíça. Foi preso. Papai Cauby deu só uma ligada e ameaçou interromper o fornecimento de petróleo para aquele País. Pronto, filhinho solto.

Pois é, meus caros, minha irmã Clarice está morando nesse barril de pólvora junto com o marido. Os dois trabalham na Queiroz Galvão. Marcelo seguiu para lá em 2008. Clau casou em março e, desde então, está em Benghazi, segunda maior cidade líbia. É lá que o bicho pega. Os revoltosos querem a independência da província, assim como de outras ao Norte do País.

Desde sexta-feira, já são mais de 100 mortos, segundo a instituição Human Rights Watch, entidade que vela pelos Direitos Humanos no mundo. Pelo twitter, acessando o hashtag #libya, comenta-se que o hospital de Benghazi conta mais de 300 mortos. Os posts são de fúria. Falam na morte de Gaddafi.

O filho do ditador apareceu na TV estatal e desmentiu as mortes e falou que o petróleo une a todos na Líbia, ao contrário do que ocorre no Egito e na Tunísia. De fato. O governo subsidia escola, luz, gasolina, casa, tudo.

Lembro-me de uma aeromoça egípcia, que me abordou num vôo Manila- Dubai. Comentei que minha irmã morava na Líbia e que os locais não aceitavam bem os ocidentais por lá. “Não é por causa da religião. São pessoas fechadas, preguiçosas, sem perspectiva e iniciativa de ir em busca de algo mais”, comentou.

Enquanto na Arábia Saudita a Lei manda que as mulheres se cubram e deixem apenas os olhos de fora, na Líbia, mesmo quando mostrar os cabelos é permitido, a população não aceita, não quer. “Os sauditas têm mais informação sobre o mundo. Pode ter certeza”, me disse a aeromoça.

Bem, no começo deste mês, conversei com um líbio. Ele me orientava a ter um plano de fuga para a minha irmã. Achei exagero. “Se Gaddafi tiver um infarto e morrer, o País entra em Guerra Civil. São 12 filhos. Nenhum preparado para assumir o poder. De imediato, os opositores se unem para expulsar a família de lá”, explicou-me.

Uma coisa é fato: Gaddafi tem dinheiro suficiente para “comprar” a opinião pública: aumentos de salário, subsídios, etc. Não tem um pingo de pena. Quando os detentos de um presídio de Trípoli resolveram iniciar uma rebelião, reuniu todos no pátio, colocou guardas em moto com metralhadoras e assassinou todos.

No entanto, constata-se que o povo líbio não está com vontade de deixar as ruas. Eu espero que não ocorram tantas mortes. E que minha irmã deixe o País o quanto antes.

Relatos de uma irmã aperreada:

Hoje, domingo, acordamos todos cedo para continuar a nossa vigília à distância. Eu, meu pai e minha mãe nos revezamos nas ligações via Skype para a Líbia e atendendo às ligações dos familiares dos demais pernambucanos que vivem em Benghazi. Descobrimos que se ligamos pelos telefones, a ligação não completa. Provavelmente, deve ser interceptada e bloqueada. A solução foi tentar o skype para o celular da minha irmã Clarice que, juntamente com o marido Marcelo Soares, foi transferida para uma casa com outros 70 pernambucanos nas proximidades do aeroporto daquela cidade. Segundo informações repassadas aos expatriados, existem dois aviões, sendo um deles da Força Aérea Portuguesa, a espera da autorização do pouso para resgatá-los.

De acordo com a minha irmã e meu cunhado, a situação está tranqüila nos arredores de onde estão concentrados. Saber disso foi um alívio para quem só consegue receber as piores notícias pela TV. No twitter, fala-se que o hospital da segunda maior cidade daquele País contabiliza mais de 300 mortos.

A expectativa é que as famílias consigam embarcar amanhã às 10h horário local (no Brasil, 5h) para Trípoli, capital líbia. De lá, será providenciado o vôo para Portugal. Ainda há a possibilidade de embarcarem todos direto para o país europeu.Acreditamos que, em seguida, deverão todos retornar ao Brasil e esperar até que tudo se tranqüilize. A empresa Queiroz Galvão e a embaixada brasileira estão providenciando o que é necessário para o embarque, tais como os vistos para que os funcionários deixem a Líbia na legalidade (o governo exige visto até mesmo para os que deixam o país) e com segurança.

A Embaixada já havia contactado todos os brasileiros, desde o início da semana, para colocar os serviços à disposição. Seguindo as instruções da empresa, minha irmã, que atua na Controladoria, e o marido, que é gerente administrativo-financeiro, não foram trabalhar e estocaram alimentos. O que vai garantir o conforto deles até o momento de embarcarem para Trípoli. Segundo minha irmã, há crianças na casa, filhos dos casais que foram transferidos para atuar nas obras da QG.

Hoje, meu cunhado passou uma lista de contatos dos pernambucanos que estão com eles para que contactemos a todos e informe que estão em segurança.É claro que para quem está distante só isso não basta para que se tranqüilize. O despertador está marcado para as 4h a fim de continuarmos checando se eles conseguiram embarcar rumo a um local pacificado.

Nesta tarde, um conhecido líbio, o empresário que vive em Trípoli com a família me contactou para oferecer ajuda. Por coincidência, há 15 dias, encontrei-o em São Paulo e ele havia sugerido que minha irmã procurasse a Embaixada para se registrar. Caso algo ocorresse, ela estaria constando nos registros dos brasileiros residentes na Líbia e poderiam ser localizados mais facilmente. Parecia vaticinar o que estava para ocorrer.

Segundo a conversa que tivemos nesta tarde, há rumores que estão tentando assassinar Kadhafi, o ditador responsável por colocar a Líbia no top 1 dos inimigos do Estados Unidos. Não se sabe se são apenas exultações ufanistas de quem não apoia o ditador. De toda forma, ele engrossou a vigília e está monitorando a chegada dos meus familiares à capital para oferecer-lhes ajuda.

Apesar de sabermos dos conflitos que envolvem a Líbia, minha irmã e meu cunhado, que vive lá desde 2008, nunca se sentiram amendontrados por ameaças terroristas, conflitos étnicos, políticos, tampouco pela violência urbana.Minha família esteve bastante tranqüila até então, especialmente, porque sempre houve uma estrutura que garantisse conforto e tranqüilidade aos dois.

A única orientação era para respeitar os costumes do muçulmanos. Portanto, cuidado com as vestimentas,além de que bebida alcóolica, ingerir porco e demonstrações públicas de afeto estavam proibidas. Regras semelhantes até mesmo a alguma localidades dos Emirados Árabes, país mais ocidentalizado do mundo árabe.Minha irmã sequer usava o hijab ou niqab (tipos de véus “mais brandos” que a burca, exigidos em alguns países como a Arábia Saudita).

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