A tocha chegou para animar a festa

Eis que a tocha olímpica chegou à China! Para lavar a alma dos chineses. Foi o coroamento do nacionalismo chinês que sempre existiu e só veio à tona. Com força. Num episódio semelhante ao do bombardeamento da embaixada chinesa em Belgrado, Iugoslávia, em 1999 pelos Estados Unidos, a massa de olhinhos puxados se uniu em coro e se revoltou contra os que ousaram detonar a face chinesa durante o percurso da tocha pelo mundo. Não importa qual seja a visão do mundo perante os conflitos do Tibete. Não importa se os chineses se solidarizam com o sofrimento dos moradores da província do Dalai Lama. Os protestos fizeram os carinhas de sono sentirem que queriam colocar espuma no chope deles. Estragar a festa que eles preparam para mostrar a força da terra de Mao (ou seria ex-terra de Mao?). E que ninguém brinque com eles.
 
A imprensa estatal não economizou em mostrar as imagens da “gloriosa tocha” (isso, aqui não se poupam os superlativos) na TV. Forte nevasca pode atrapalhar a chegada da tocha no Everest? Quando, como, onde? Alguém viu? Não. Tudo foi perfeito.  Cheguei em casa, minha housemate Shelly, nascida em Shanghai, porém criada nos Estados Unidos desde os cinco anos, estava reclamando.”Que saco, não agüento mais zapear no controle da TV e só ver a mesma coisa, tocha, tocha, tocha”. É, ela já está vivendo há muito longe da Pátria-mãe. Não entende o que está se passando.
 
Os ocidentais precisam entender que o chinês está sofrendo. Ok, você deve pensar que os tibetanos também têm o direito de externar a insatisfação por tanta opressão. Sim, os chineses se solidarizam com eles, apesar de não aceitarem a independência da província. Mas, com as Olimpíadas, meu filho, não dá. Não dá para mexer. E isso fez o Dragão sair da toca. Os franceses botaram a boca no trombone e agora, os ui ui ui estão pagando aqui.
 
O Carrefour está entregue às moscas. Chinês que vai fazer compras lá está ferindo o orgulho nacional. Tenho um casal de amigos brasileiros. Ela é loura com olhos azuis. Ele raspou a cabeça no estilo que para os chineses é uma referência aos franceses. Pegaram um táxi em Xangai e o motorista começou a rodar, rodar. A moça sabe falar mandarim e perguntou o que se passava. O motorista perguntou de onde eles eram. “Brasil”. A resposta: “Me desculpem. Eu adoro o Brasil. Pensei que vocês eram franceses”. O taxista os deixou no hotel e não cobrou o extra pelas rodadas a perdido. Assim como aconteceu em 1999, quando americano teve de dizer que era inglês ou africander para não receber no mínimo um bird (em inglês, dedada), francês está dizendo que é italiano. Tu imaginas como isso é difícil para quem vem da terra do Louis Bouvé e que não aceita responder a um turista a simples pergunta: where is the bathroom?
 
Os chineses apertaram as regras para renovar o visto. Neguinho gringo tá doido aqui. Estão saindo aos rodos do país. “Quem mandou manchar a face da China, do chinês?” Me perguntou o policial da imigração. É difícil para os ocidentais entenderem a força dessa manifestação. O chinês não se vê individualmente. Criticar dona Maria da quitanda é xingar cada chinês. Falar de do presidente Hu (Jintao) é xingar o povo da China. Governo e povo são uma coisa só. Não adianta. Eles não vão separar. É preciso ser muiiiiito cutícula com um chinês, ser encarado como compadre da terra para que um chinês critique o governo na sua frente. Ponto. Essa galera teve se unir faz tempo para encarar os entrusos que desde a época de Marco Polo tentaram fazê-los comer de garfo e faca e eles nunca se rebaixaram.  Gente, eles fizeram no passado o primeiro-ministro inglês, o país com a maior esquadra naval do mundo naquela época, voltar de mala e cuia porque o lord não quis se inclinar para o imperador!
 
Tu achas que eles vão aceitar que alguém coloque bocão e manche a alma de todos perante o mundo na festa do século, a Olimpíada? Nunca!!! E quem quiser que arrisque. Eu entendo o que se passa. Muitas vezes gostaria que nós, brasucas, tivéssemos perante Renans, propinodutos e cartões corporativos uma postura tão firme. Ou que um dia pudéssemos achar que nosso governo e o nosso povo são uma coisa só. Bem, não dá para achar que a tchurma aí é a mesma coisa que todo brasileiro, né? Podem até os cientistas sociais dizerem que o povo tem o presidente que merece. Bem, ó, se chinês tem que sofrer com a falta de liberdade para ter emprego, é o preço deles. A gente, bem, continua jogando futebol e tomando cerveja. Pelo menos, hehehehe, todo taxista adora dirigir para mim aqui. Nunca gostei tanto de dizer obrigada!

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