Abril 7, 2009

Cerebro de carneiro para ficar criativo, lingua para ficar falante

Habibs tocando citra

Habibs tocando citra

A comida e uma delicia. Cuidado so se seu chefe quiser agradar

A comida e uma delicia. Cuidado so se seu chefe quiser agradar

Esse negocio de ter morado na China me fez ser escolada para algumas coisas. Uma delas e a tal da etiqueta a mesa. Em termos de Asia, a questao nao e saber usar talheres. Mas, principalmente, estar pronta para retribuir a oferta de iguarias comendo e exprimindo um: Delicia!

Nesta semana, tive a chance de participar de um autentico banquete arabe. Digo autentico porque ja havia jantado com meus amigos arabes – sentadinha no chao, com as pernas cruzadas, sem sapato, comendo com a mao direita (a mao esquerda e supostamente mais suja, porque, segundo o Corao, deve ser a que se usa para a higiene pessoal), jogando os ossinhos na toalha e, no final, soltando um “Ala, obrigada!”. Ah! Tambem tem que lavar a boca e o rosto depois de fartar com a comida. A questao e que os meus habibs sabiam das minhas limitacoes gastronomicas. Meu chefe local, nao.

Antes, uma nota: Sim, meu chefe usa a kandurra (a batinha branca) e o veuzinho na cabeca. Como os sheiks. A recepcionista filipina do escritorio casou com um jordaniano. Virou muculmana, passou a rezar para a Meca e todo o pacote que acompanha casar com um muculmano. O chefe resolveu celebrar com um almoco no deserto. Fomos todos. Aqui, trabalha gente do Sri Lanka, Siria, Alemanha, Brasil, Filipinas e Emirados. Joia.

Chegando la, apos uma partidinha de futebol, entramos no salao. Uma sala coberta de veludo vermelho nas paredes, tapete carmim, almofadas. Ah, claro! A foto de Vossa Alteza, Khalifa Bin Zayed Al-Nahyan, president e dos Emirados. Homens de um lado. Mulheres do outro. Na esteira, dois paneloes com arroz, carneiro e frango. Eu amo comida arabe! Acho que, em outra encarnacao, usei burca.

Eis que, o chefe, querendo mostrar hospitalidade (mas com uma pitada de zoacao), comeca a oferecer as partes mais exoticas do carneiro. – Ana, toma um pedaco do cerebro. Para voce ficar criativa! Chefe manda, a gente obedece. Olhei aquela carninha fofinha (Ah! Para quem comeu tanto troco na China, vai…), lept! Gostoso, viu? Ai, ele joga a lingua no meu prato. “Para fazer voce ficar falante”. “Chefe, ja falo demais”. A vitima foi a brasileira do meu lado. Olhei para a coitada engolindo aquilo, enguiando, segurando o vomito e nao me contive em me lembrar de situacoes semelhantes que passei na China. Ai, veio a orelha. Chefe pergunta: “Quem vai querer?”. Levantei-me e fui lavar a boca. Ta bom,ne?

Terminada a comilanca, docinho arabe com nozes folheadas. Pedaco do ceu! E muita musica! Cada habib com seu instrumento. Ta vendo que da para ser feliz mesmo sem cachaca e biquini?

Futebol para comecar. Jogar de kanudrra nao deve ser facil

Futebol para comecar. Jogar de kanudrra nao deve ser facil

Mah Salahm!

Abril 5, 2009

Nova vida no Oriente Medio

Ras Al Khaimah - desenvolvimento sem poluicao e com gosto de kibe

Ras Al Khaimah - desenvolvimento sem poluicao e com gosto de kibe

Assalamu alaikum!
Esta criatura que vos escreve digita do meio do deserto. Mais precisamente em Ras Al Khaimah, Emirado Arabe a uma hora de Dubai. Ja deu para perceber que digito de teclado arabe, sem acentos e cedilhas. Comeco mais um capitulo do meu periplo pelo mundo.
Ha um mes, fui convidada para trabalhar numa empresa de trade, que opera com commodities brasileiras e chinesas, alem de possuir varios investimentos junto a projetos brasileiros. Nao esqueci da China. A diferenca e que, agora, aqui e minha casa. A China, um territorio aonde irei periodicamente tocar meus projetos por la. Nao desisti do Dragao. A diferenca e que agora tenho tambem um camelo. Tao sedento quanto.
Isso aqui e fascinante. Pensar que os Emirados, incluindo Dubai, eram um deserto so ha 40 anos. Que o Sheik, Sua Alteza Esclarecida, fez o dinheiro do petroleo render e transformou isso aqui num paraiso onde gente da India, Bangladesh, Paquistao, Filipinas e, nao se enganem, ocidentais buscam vida e dinheiro, simplesmente, encanta-me.

Ras Al Khaimah lembra meu Recife. Quentinha, tem mangue, ceu azul, mar e montanhas belas que, no inverno, chegam a abrigar neve. As coisas sao um pouquinho mais conservadoras que Dubai. Um pouquinho. Nao me sinto confortavel em usar minissaia na rua. Mas, corro na praia todos os dias e ninguem enche meu saco. Claro que existem certos cuidados que meus santos amigos habibs da China me ensinaram: Nunca encare um arabe nos olhos. Entao, e so caminhar olhando para o nada.
As leis sao severas para quem mexe com mulher. Basta uma se sentir desrespeitada para ligar o 190 a e a policia bater. Se for estrangeiro, deportacao na hora. Os locais, sinceramente, no maximo olham. Deevem ter suas quatro esposas, estao satisfeitos. Os indianos e paquistaneses e que, as vezes, excedem-se. Estao no batente ha anos, enquanto as esposas estao na terra natal. Mesmo assim, nao me sinto nenhum um pouco amendrontada. Ate o problema do batedor de carteira nao existe, como na China.

Esse e-mail foi apenas para contar a novidade. No proximo, cenas do meu primeiro banquete arabe.
Vou mudar o nome do meu blog para Ana domando o Dragao e o Camelo. Estou aberta a sugestoes.
Ma Salam! Ala esteja com todos!

Março 21, 2009

Voltando aos meus negocios na China

Se Brad pode, eles tambem podem. Ou nao?

Se Brad pode, eles tambem podem. Ou nao?

Amigos,

perdao pela demora em mandar um novo post. Depois de dois meses de ferias no Brasil, bateu aquela preguica, recheada de banzo e estimulada pelo frio danado da  China. Sair do calorzinho para esse inverno umido e chuvoso e uma formula maravilhosa para sugar as minhas energias.

Pois bem, nesse post, vou enumerar os fatos que fazem com que a sua ficha caia que voce esta nessa esplendida China:

- Voce assiste a TV e eis que o entrevistado tira catota em pleno ar;

- Voce pode fazer massagem de duas horas, corpo inteiro, por R$ 20!

- Voce encontra seus conhecidos locais e, em vez de: Saudades! Como voce esta?, comentam: “Voce engordou!”

- Voce pode sair as 3 da matina com Ipod no ouvido e sem o menor medo

- Voce pega um taxi, da uma gorjeta de R$ 5 para que o motorista ajude com as malas, e o cara ainda vem barganhar mais.

- O pulmao pede arrego por causa da poluicao

- A cerveja ataca seu figado como nunca

- Voce lembra que tem de conferir a data de validade de todas, Todas, as latas, sob pena de colocar seu almoco a perder.

- Relembra como pegar um taxi pode ser uma acao perigosa, dependendo do seu estado de espirito, voce quer voar no pescoco desses fdp.

Mas, preciso ressaltar que as coisas estao melhorando. Nao sei se por que acabaram de sair do Ano Novo Chines (a unica folga dos coitados) ou por causa da crise, notei um chines mais humilde, humanos, dipostos a ajudar. Tanto que a proporcao de taxistas fdp caiu de 4 a cada 5, para 2 a cada 5! Are baba! Depois do sucesso de Negocio da China (Duvido que algum jargao em chines tenha colado na boca do povo), o lance e a India.

Grande abraco!

Janeiro 17, 2009

Oba, oba, oba cada um com o seu yakissoba

Vai um intestininho ai?

 

A Olimpíada passou. O frenesi passou. O Mc China também. Pois é, um simples sanduíche “jogada de marketing” merece ser comentado. A mistura de pão com carne não chegou em solo chinês. Ficou no Brasil. E tão pouco chega perto do que se come na terra onde cão pequinês no prato é coisa cara. Esqueçam. Aquela rua famosa do bairro do Espinheiro não representa o mundo gastronômico do Império do Meio.

Leitores, vocês não estão aqui para ler receita ou crítica gastronômica (Ops, chineses não levem essa palavra “crítica” ao pé da letra). Eu sei. Mas, a relação que o chinês tem com o prato é algo que merece ser comentado. E advertido. Aqui, existe um ditado: “Não experimente tirar comida do prato de chinês. Esse povo aparentemente pacífico consegue se unir para derrubar qualquer imperador ou ditador”. Parece razoável, certo? Só que eu arriscaria extender essa máxima extremista para algo além da fome. Para o orgulho.

A comida chinesa é um patrimônio. Por ela, os chineses vão do ódio ao amor. Eu preciso dizer que, qualquer convite para uma refeição típica, para mim, é algo desafiador. Meu primeiro churrasquinho chinês – descrição da cena: “Minha amiga chinesa pega um pé de galinha, com direito a unha, do espeto, coloca a boca e diz “delícia!”". Meu primeiro jantar com uma família chinesa – descrição da cena: “A dona-da-casa quer demonstrar hospitalidade e joga na minha tigelinha o pedaço da gordura amarela do peixe. Eu tenho de comer. Não passa na garganta. O resto vocês imaginam o que aconteceu”.

 Não quero gastar palavras e seu tempo, leitor, estimulando preconceitos. Todo mundo sabe que na China se come escorpião, sapo (esses são comprados vivos no supermercado. O cliente aponta qual ele quer, o funcionário coloca numa rede e leva para o caixa) e outras coisas. Não faça cara de asco. Lembre que no nosso Brasil come-se calango, javali, rã e outras carnes exóticas. É só costume.

 E há de se admitir: a culinária chinesa é tão diversificada quanto as etnias que vivem no país, proporcional ao tamanho do seu imenso território. Mas, vamos combinar: sou uma humana, tenho direito a não gostar de certas coisas, Ok? Não para os chineses. Não comer comida chinesa ou simplesmente dizer que você não gosta de apenas um prato é tão criminoso quanto xingar Mao Tse Tung. No mínimo, você será taxado de inimigo ou terá cometido um suicídio social. Que estejam todos os advertidos: esse é o preço para ter amigos chineses.

Eu fui avisada a tempo. Antes de embarcar para o roteiro de Marco Polo, imigrantes chineses no Brasil disseram para que eu não ousasse deixar comida na tigela. Tem que comer o que se colocar no prato. Eu não imaginava quão sério isso é. Cenas recentes da minha vida: Saio para jantar com a minha housemate chinesa. Vamos a um restaurante local. Eu me antecipo e peço logo um prato que é uma mistura de amendoim com legumes e frango, de gosto familiar. Durante a conversa: “A esposa do meu chefe é uma idiota. Insuportável. Para começar, ela não come comida chinesa. Existe alguém no mundo que preste e não coma comida chinesa?”. Sim, eu gosto de arroz frito, rolinho primavera e outros pratos.

 Existem comidas deliciosas. Mas, reservo-me ao direito de não gostar de alguns pratinhos, oras! Mas, desistam. Quer fazer negócio com olhinhos puxados? Ofereça um jantar chinês ou coma o que eles colocarem na mesa. Sim, depois que você acertar o contrato, eles vão te levar para uma sala com mesa redonda (significa união, ciclo sem fim, elo inquebrável) e vão te servir as iguarias locais. E você tem de comer. Felizmente, sempre tem comidinhas gostosas. Se não gostou? Problema seu. O chinês não te dá esse direito. Ponto. A comida local é algo que eles querem proteger dentro por uma Grande Muralha.

A sobremesa mais popular nos fastfoods locais é o pastel de Belém. Isso mesmo. Esse docinho com gosto de infância em Portugal e Pernambuco é comido vorazmente por aqui. Chegou por Macau, a colônia chinesa que foi dominada pelos “tugas” e se espalhou entre os comunistas. Claro que não perdi a chance de comentar que isso foi uma criação lusitana. Resposta? “Eles não teriam competência para criar algo tão gostoso. Isso foi criado por chinês!”, me disse a minha ex-chefe. À chefe a gente não responde, né?. Mas, se eu pudesse…

 Então, agora, você já sabe. Se um amigo chinês perguntar se você gosta de comida chinesa. Diga que sim, que ama. Se ele estender um convite, haverá pratos deliciosos. Se você cruzar com algo que você não gosta, não vale fazer cara feia, tá? Mas, vamos às ponderações: como você reagiria se alguém dissesse que a brasileira é feia? Pois é, cada um com sua Cidade Proibida.

 Aproveitando o espaço, quero terminar falando do saldo positivo da Paraolimpíada. É um acalanto para o coração ver chineses reconhecendo a coragem e o sucesso de seus para-atletas. Ver Beijing adaptada para cadeirantes e deficientes. A China, como foi isolada por uma bolha por muito tempo, não conseguiu se acostumar com o diferente. E isso inclui pessoas especiais.

Lembro-me de ter colocado no colo uma bebezinha com Síndrome de Dow e minhas amigas comentarem: “A mãe dela deveria deixá-la escondida dentro de casa”. Num lugar onde se pode ter um único filho e o aborto é liberado, onde há essa mistura de pressão e liberdade, certas coisas pareçam ilógicas. Não importa. Como não podia ser diferente, a Paraolimpíada trouxe uma chuva de medalha. Tenho a certeza que muitas coisas já mudaram e vão mudar. Basta os chineses terem orgulho. E é por isso mesmo que a relação deles com o prato nunca vai mudar.

Ps: yakissoba é um prato japonês, que os chineses copiaram. Plágio, plágio. Só usei no título pela sonoridade :)

Janeiro 1, 2009

Feliz Ano do Touro!

Não virei chinesa. Não sou fã de plágio. Mas, ao ler uma das crônicas de Fernanda Young, essa criatura que anima as minhas tardes de sábado na China, resolvi inspirar-me novamente nela para desejar os meus votos de um 2009 de céu azul e Sol brilhante capazes de acalmar qualquer dor na alma.

 

Bem, usando- me como exemplo, gostaria de sugerir que todos juntem os “nãos”, os “duvidos” e os transformem em tijolos. Tijolos para construir a sua estrada. Seja onde ela for parar. Desde que seja um destino chamado felicidade. Aí só vai faltar a coragem de caminhar.

 

Há um ano, ouvi muitos “nãos” e “duvidos”. Minha estrada me levou à Terra do Dragão. E descobri que não há nada mais irritante do que a covardia dos infelizes, dos que querem ancorar as suas pernas ao chão. Não acham?

 

Um feliz 2009, feliz Ano do Touro – ano em que quem trabalhar vai ganhar dinheiro, Inchalá! - Xin nian Kuai le!

Deixa o Ano do Touro chegar!

Deixa o Ano do Touro chegar!

Dezembro 14, 2008

Feministas sem sutiã para queimar

A imagem no muro da Cidade Proibida é uma homenagem à Imperatriz Cixi, a mulher mais poderosa da China

A imagem no muro da Cidade Proibida é uma homenagem à Imperatriz Cixi, a mulher mais poderosa da China

 

Uma simples conversa em meio a um almoço de colegas serviu de startpara querer escrever sobre o tema fascinante das mulheres da China. Uma das minhas colegas pediu licença para sentar à mesa e, papo vai, papo vem, ela me mostrou a foto do novo bebê da família. Coisa de tia que ainda não teve o seu primeiro filho. Fiz cara de “Ó, que fofo” e perguntei: qual o nome?. A resposta: “A gente o chama de o bebê”. Uma pausa. Não é a história do “menino” de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que nunca teve nome, que nunca foi alguém com direito às suas próprias escolhas em meio à caatinga seca. Mas “o bebê” traduz também sofrimento. De gerações que aceitaram a regra espartana da sobrevivência. Da necessidade de lutar pela comida. De que cada boca seria um peso enorme que precisava ser compensado com o trabalho.

O “bebê” é uma menina que nasceu sem nome. A barriga da mãe estava pontuda demais e a pele, estragada demais para ser um menino. Por isso, ninguém se preocupou em pensar em um nome feminino. Essa foi a explicação que minha colega deu. “E o exame de ultra-som?”, perguntei. Na China,é proibido. Ninguém pode saber o sexo do filho quando ele está na barriga. O motivo é evitar abortos, caso se descubra que uma menininha estar por vir. Como no passado, quando uma filosofia malthusiana incentivou abortos entre as famílias rurais que queriam mais uma força braçal e, sem admiti-lo oficialmente, muitas vezes realizado à força pelo governo para o controle da natalidade.

O controle ainda existe. Os casais ainda podem ter apenas um rebento. Quem quiser desafiar as leis perde benefícios sociais, paga multa e pode até perder o emprego se trabalhar em uma empresa pública. Só que, agora, o mundo é das mulheres. Em parte. Minoria que se tornaram, dão-se ao luxo de serem disputadas pelos noivos. No entanto, o peso do conservadorismo da sociedade não as permite viver a liberdade de um mundo feminista, queimar sutiã, falar de sexo na TV no café-da-manhã, usar biquíni grávidas. Portanto, é preciso analisar esse mosaico de circunstâncias para saber o que é ser mulher na terra de Mao-Tsé-Tung.

Eu lavo, você cozinha – Aqui é uma terra comunista. Por mais que os próprios chineses dizem que isso é passado, eles não conseguem, talvez, enxergar, as marcas que o regime deixou em suas próprias vidas. Como uma garota oriunda do mundo latino machista, surpreendi-me ao constatar que, aqui, homem cozinha, sim, e não é porque está na moda. Ele lava, passa,arruma. Na sociedade chinesa comunista, todo mundo tinha de trabalhar. Aliás, esse lance de marido sustentar mulher é algo puramente capitalista que permite a alguns o luxo de bancar a casa sozinho. Se ela também sai para o batente, ele também tem que pegar no esfregão. Essa é a lógica. Tudo meio a meio.

Lembro-me que comentei que tive um namorado que nunca soube o que era lavar um prato. Avó, mãe, empregada fazia isso, oras. Não é tarefa de homem. Todos os meus colegas riram. Um disse: “Eu nunca arranjaria uma noiva se ela soubesse que eu não sei lavar pratos”. O outro disse: “Se eu não deixar a louça brilhando minha mulher me enche de tapa”. E, pasmem, muitos homens barganham na hora de pedir a mão das amadas em casamento prometendo assumir todas as tarefas de casa, caso elas aceitem o pedido.

 
E, assim, a mulher chinesa administra o salário do marido, dá as ordens. Não fique pasmo se cruzar com um casal brigando. Muitas vezes, a mulher grita e o homem escuta calado. E, com o mundo se abrindo para elas, o homem teve que ficar ainda mais calado. Amendrontado.
Essa chinesa que trabalha e se informa cansou do homem local, “sem sofisticação”, como elas dizem. O chinês típico fala pouco. Faz mais. Mas, elas querem um homem romântico, tal qual os dos filmes estrangeiros, com direito a vinho, passeios na Champs Elysée, frases recheadas de amor, roupas modernas. As mulheres estão exigentes e até egoístas. Muitas adotaram o lado carpem diem da vida ocidental. A chinesa programada para trabalhar, casar e ter filhos dá lugar à aventureira, que deixa o marido em casa com os filhos e vai para a farra.

A informação chega também para o homem chinês. Mas, o peso da sociedade conservadora faz com que elas sejam algo difícil de digerir. Há um peso da cobrança imenso sobre o homem. Mesmo com toda essa pujança feminina, na tradição, ele é quem paga o apartamento, o carro e até toda a festa de casamento. Existe, inclusive, um ditado que diz: “Se você tiver uma menina, você será dono de um banco. Se você tiver um menino, você está criando um lobo que vai lhe comer”. Refere-se aos gastos que a família do homem assume para que ele consiga casar decentemente. E, por isso, muitos casais modernos têm sonhado com uma menina.
Independente, pero no mucho – Foi um choque. Na minha cabeça, a mulher oriental era submissa tal qual no Japão. E acredito que deve acontecer com a maioria dos ocidentais, que ainda têm uma idéia nebulosa das diferenças entre os países dos olhos puxados.
Mas, a China também está longe de ser a república do sutiã. É pouco o conhecimento que a chinesa tem sobre o sexo. Esse é um tema velado. Filmes pornôs? Só no mercado clandestino. Falar sobre isso na mídia? Proibido pelo governo e pelo conservadorismo. E esse conservadorismo pressiona as mulheres para que casem até os 25 anos, que tenham filho, que sejam tímidas (o estereótipo da mulher ideal). Qualquer uma que quebre um desses parâmetros sofre de solidão. Sem apoio de amigos e da família. Aqui, ainda é difícil ser diferente. Ter suas rédeas. Ainda não existe esse país totalmente feminista. Nem na China, nem em canto algum do mundo.

Dezembro 9, 2008

Eles só querem viver esse sonho

A pedidos, mais um texto do Pernambuco, Diário Oficial

 

Não importa a idade, o mico. Deixa os carinhas curtirem em paz

Não importa a idade, o mico. Deixa os carinhas curtirem em paz

No meio da muvuca de mais um dia de trabalho, num verão escaldante até para quem nasceu em terras tropicais, parei para assistir às telas de propaganda do metrô de Xangai. Uma moça oferece o guarda-chuva para uma estranha se proteger da tempestade. O motorista de ônibus espera pacientemente uma velhinha subir no ônibus. O filme encerra com uma moça bonita dizendo que a Olimpíada de Beijing está chegando. É preciso ser altruísta, ajudar o próximo, impressionar. Eu pensei: “Não faz um ano, a mesma moça pedia para que os chineses não cuspissem no chão”. Esses jogos…
Detalhes. Para nós, estrangeiros, importantes. Jogue a primeira pedra quem nunca fez cara de asco ao ver um chinês cuspindo no chão. Para quem há menos de uma geração não sabia o que era ter roupas de cores diferentes no guarda-roupa tanto zelo são apenas frescuras ocidentais. E essa cautela em orientar os chineses a respeitarem nossas frescuras é o termômetro para dizer que a Olimpíada de Beijing está pronta para acender a pira e marcar a história dos jogos mundiais. Não apenas o relógio que faz a contagem regressiva. Os jornais que estão mais que abarrotados de notícias sobre os últimos minutos. O chinês espera paciente e tranqüilo para ver com seus olhinhos apertados o resultado de quatro anos mais que frenéticos. De uma forma tão blasé que quem se acostumou ao nosso ritmo brasileiro de deixar tudo para a última hora estranha.

Vieram terremotos, protestos no Tibete e até recentes atentados. A China estava pronta de mangas arregaçadas. Estádios entregues antes da hora. Aeroportos novos. Um canteiro de obras. Não será qualquer coisa que destruirá esse sonho. Nem as filas imensas para comprar um ingresso. A frustração de não ter sido sorteado numa loteria esquisita que pinçou que chineses poderiam sentar na platéia do ping-pong, natação, ginástica e futebol.

Além de outros contratempos. Regras lançadas de um dia para o outro para expulsar os ocidentais indesejáveis. “São as Olimpíadas. É a nossa cara em jogo”, me disse o policial da imigração. Um presidente europeu que fala o que os chineses não queriam escutar. “Aqui é proibido entrada de cachorros e franceses” estampado nos táxis de Beijing. De repente, todos os msns, facebooks, orkuts e o que mais existisse na web estampavam o “I Love China”. “Se você defende o seu país, está cansada dessa tentativa de boicote aos jogos, escreva essa frase onde puder. Vamos mostrar que estamos unidos para impedir que destruam nosso sonho”, dizia a corrente da internet.

E eles precisam relaxar mesmo.As mudanças por causa das Olimpíadas foram implementadas a toque de caixa. Obras incensantes. Reestruturação de normas. Tentar educar o seu povo em um curto espaço de tempo .
Empenho que fez com que ocidentais, como eu, tivessem a chance de cruzar com personagens encantadores. Como a taxista (isso mesmo, mulher no volante) que aprendeu a falar inglês para dirigir para os estrangeiros e passou a usar pérolas nas orelhas e pescoço, além de muito perfume, para dar o clima de boas-vindas. “É para deixar os turistas que estão para chegar sorrindo”, disse ela. Não sabia a motorista que já havia deixado uma boquiaberta.

O fato é que a China, hoje, vive tempos de revolução. Bem diferentes da que fez com que a minha vizinha xangainesa de 53 anos, cujo nome em inglês é Lilly, aprendesse sozinha a falar inglês. Ela foi um dos motivos mais que pertinentes para chegar atrasada à minha aula. Numa conversa despretensiosa, no elevador, ela me contou o motivo de tanto empenho. Na metade da década de 70 , a então universitária dotada de idéias contrárias aos interesses dos comunistas do líder Mao-Tsé-Tung foi enviada ao campo para trabalho forçados. Era obrigada a limpar as latrinas. Carregou escondido livros que ensinavam a língua do Tio Sam. Segundo ela, uma forma silenciosa de se opor ao movimento que paralisou a produção técnico-intelectual do país. Prestes a se aposentar, Lilly respira fundo quando lembra do que enfrentou no passado, mas enche ainda mais o peito para o que vê nas ruas. “Mesmo com tanto controle exercido pelo governo nas informações, é inegável que se inaugurou uma nova era em que o chinês se vê compelido a se abrir para o mundo e está orgulhoso disso”, disse a senhora sorridente.

One World, One dream. Um Mundo em um só sonho. Quem diria que o país que tanto hostilizou o Ocidente abriria-lhe suas portas desta forma acolhedora? Pagou-se um preço, é certo. Mas o sonho tinha de ser perfeito. Uma utopia merecedora para quem carregou tanto peso nos ombros. Se informações foram manipuladas para manter essa perfeição imaginária, isso também veio no pacote que os chineses resolveram aceitar. Quem quer saber de atentados às vésperas das Olimpíadas? Se a mídia internacional alardeia, na China, isso vira uma notinha de rodapé.

Quem luta por democracia se choca. Acha injusto. Mas, esse é o sonho de uma maioria, que quer curtir a fofice dos mascotes Beibei, Jingjing, Huainhuain e Nini (juntando as primeiras sílabas quer dizer Bem-vindo a Beijing). Sentar com o neto no colo e ver um show inesquecível nem que seja apenas pela TV. O resto? Deixa com a gente que dificilmente vai conseguir entender a alma dos que conseguem enxergar um mundo diferente pelos olhinhos puxados.

Dezembro 9, 2008

Uma China de muitos hellos e Ni Haos

Ópera de Beijing.Minha opinião? Bem melhor do que muito espetáculo da Broadway. Só faltam os chineses entenderem isso

Ópera de Beijing.Minha opinião? Bem melhor do que muito espetáculo da Broadway. Só faltam os chineses entenderem isso

Para começar essa história,é preciso remontar ao dia 16 de outubro de 2007. Fazia planos de como preencher meu dia-a-dia na China. Com a criatividade alimentada pelo filme Amor à Flor da Pele , de Wong Kar Wai, imaginei-me usando o tradicional chipao (o vestido típico chinês) envergado por Maggie Cheung, saindo para comprar noodles nos dias de tédio e praticando Tai-chi-chuan todas as manhãs. Mal o avião aterrissou, vi que esses meus sonhos teriam de ser guardados na gaveta da imaginação ocidental que, pode não perceber, mas tem informações bem superficiais do que a terra do Grande Timoneiro Mao atualmente. A China mudou. Se para a melhor ou para pior, cada olhinho puxado que tire as suas conclusões.
Estou há dois meses na China, na cidade de Wuhan, a quinta maior do país. Não haveria lugar tão perfeito para constatar o que é a vida no Império do Meio de hoje. Apesar de estar num ritmo de desenvolvimento frenético, com fábricas de automóveis suficientes para carregar o ar com uma poeira insuportável, a capital da província de Hubei contém em si o significado do que seria provinciano. Na mesma rua, vê-se a placa da China Mobile, a grande estatal de telefonia celular local, com um homem vendendo gansos vivos, carregando-os pelas patas. Estrangeiros chamam atenção de toda forma. Andar pelas ruas é um teste de ego e de paciência. Para os de fora, mesmo quem tem cabelos castanhos e usa óculos escuros para esconder os olhos arredondados, é preciso parar de tempos em tempos para tirar fotografias com os celulares.

 

Ah! Os celulares. Não existe febre maior entre os moradores e, ao mesmo tempo, que traduza o quanto o chinês está embalado pelo capitalismo e pela globalização. A tradicional frase puxa-assunto daqui – Você já comeu? – fruto da preocupação exacerbada do chinês a falta de comida, cuja s marcas o comunismo deixou em milhares de famílias que perderam seus parentes na Grande Fome da era Mao (década de 50), foi substituída. Hoje, quando um chinês quer ser simpático pergunta: “Você já foi às compras na China?”

 

Essa paixão pelo novo, fez o chinês esquecer certas tradições com a mesma velocidade da taxa de crescimento desta economia. O Tai-chi não é mais praticado nas praças, como ocorria há menos de cinco anos. Virou artigo de contemplação acadêmica. Para aprender a tão tradicional arte macial é necessário uma verdadeira pesquisa. Apenas os mais velhos ainda seguem para as praças, onde realizam a dança comunitária, uma coreografia de passos delicados e coordenados por uma das integrantes do grupo, que fica à frente das demais.

 

Querer usar o chipao de Maggie Cheung é despertar o nojo entre os jovens de 20 anos. “Para que usar isso? Apenas minha avó ainda insiste em usar essa coisa tão antiga. A China mudou e vocês, ocidentais, não querem enxergar”, respondeu-me, asperamente, uma chinesa de 20 anos, cujo nome inglês é Lynn, que acabara de voltar de um intercâmbio à Índia. País cuja tradição de seu povo representou à estudante de economia a incapacidade do governo de preparar o país para os novos tempos do desenvolvimento.

Uma terra de Marys, Christinas, Joes – A guerra é alimentada pelo governo. Essa geração que sai das universidades, aos quinze anos, já tinha um nome em inglês, inspirado nos personagens dos filmes de Hollywood. Um jeito de facilitar a vida do investidor estrangeiro, a grande solução para empregar a imensa população chinesa. Falar com um bebê em chinês é quase impossível. As mães de classe média, ao verem um estrangeiro brincando com seus filhos, além de abrirem um sorriso largo por alguém demonstrar carinho para a única e derradeira cria, estimulam os rebentos a falarem How do you do? What’s your name?. Se o filho fala direitinho, com certeza, ela não dormirá de alegria. Significa que o filho não terá que aprender inglês às pressas para não perder o emprego como ela.

 

A luta para preservar a tradicional cultura chinesa é inglória e feita por iniciativas individuais. Grupos começam a surgir em Beijing para criticar essa ocidentalização demasiada. A última inciativa desses heróis da resistência foi um protesto para expulsar o Starbucks da Cidade Proibida. Viridian, um estudante de Relações Internacionais, 23 anos, sabe que é motivo de chacota entre as garotas descoladas da universidade. Ela e mais cinco amigas freqüentam os templos budistas e cantam na ópera da escola. Ela foi a minha salvação. Desde que cheguei, tentava assistir à tradicional Ópera de Beijing, com suas máscaras e pinturas únicas. Antes de encontrá-la, escutei a pergunta quase que repetida com as mesmas palavras. “Para que sair de casa para ouvir o iiiiiii das cantoras?”.

 

Outra força é o medo dos erros do Ocidente. Os pais temem essa ocidentalização toda. Ir às boates (toda semana há inauguração de uma nos moldes americanos) é motivo de castigo. Por isso, a maioria dos jovens até os 25 anos freqüentam os karaokês. No entanto, os olhinhos ainda brilham quando sabem que eu freqüento os bares como os que aparecem nos episódios do seriado americano de Sex in the City, baixados da Internet, através de dribles ousados aos bloqueios do governo à web.

Apesar de toda essa sede ocidental, os chineses alimentam a tradição da família, dos casamentos fartos, das mesas com incontáveis pratos, da comida saudável e mantêm o medo da gordura Trans e da coca-cola que deixam os ocidentais imensos e da vida cheia de liberdade e de drogas que destroem as famílias do lado de lá. Apesar das cenas de Shanghai e Beijing que o governo envia para as Tvs de todo o mundo, não se iludam. O ganso pendurado na frente de lojas de celular deverá existir por algum tempo.

 

Ainda bem. Comer de pauzinho, tomar chá e ir ao banheiro típico em que a privada é um buraco no chão continuarão sendo uma aventura única e curiosa para quem se chega por essas bandas.

Dezembro 9, 2008

Chinês + Brasileiro / 2 =?

Hotel em forma de vela em Dubai. Por trás do glamour, gente trabalhadora e satisfeita.

Hotel em forma de vela em Dubai. Por trás do glamour, gente trabalhadora e satisfeita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De volta à terra. Com direito à caipirinha, cerveja, ipod no ouvido (desta vez, não como forma de não escutar as escarradas), céu azulzérrimo, sol brilhante. Nossa. Muito bom saber que essas coisas não mudaram.

 Muito ruim, no entanto, descobrir que minha cidade, Recife, continua com os mesmos problemas. Dinheiro gasto em obras inúteis, trânsito que não funciona, violência irremediável.

É quando sinto falta da China.

Confesso que andei xingando o Brasil. Quando o coração apertou ao lembrar que, na minha terra, não se pode andar na rua com o Ipod no ouvido a qualquer hora. Quando descobri o prazer de voltar para casa depois da balada às 5h sem medo de assalto. Sem falar de ver as obras acontecendo, pessoas sendo empregadas, as coisas surgindo.

Estava precisando mesmo descomprimir. Passei uns dias em Hong Kong e Macau. Nunca odiei tanto chinês comunista! Ver chinês educadérrimo ao lado de furão de fila só mostra o quanto eu estava anestesiada na China Mainland. Voltei a Shanghai. A raiva passa. Você se acostuma.

Fui a Dubai. Gente sorridente. Cidade limpa. Esperança por todos os lados. Bateu o desespero de saber que vou voltar à China dos taxistas quase sempre “rústicos”. Digamos assim.

O avião aterrissa no Brasil. Nunca imaginei que me tocaria tanto escutar :”Senhora, deixa eu te ajudar com as malas”. Veio de um comissário de bordo. Caiu a ficha que nem mesmo no avião, onde o comissariado é treinado para ser cortês, eu escutava tamanha gentileza. Nosso povo é doce. Ponto. Isso ninguém tira.

Mas, também, o chinês comunista é bravo. Que ninguém se engane. Tirar comida do prato e mexer com filho é provocar um segundo “Tian An Men Square”.

Eu sei que País em Desenvolvimento já quer dizer algo imperfeito. Mas, bem que podíamos juntar chinês com brasileiro e dividir por dois. Que acham?

Resultado: Gente mais educada (menos escarradas no chão), mais gentil, mais persistente, mais dedicada ao país (grande mérito chinês) e ainda resolveríamos a imensa quantidade de mulher no caritó no Brasil! Sim, aqui sobra mulher. Lá, homem. Quem topa?

Novembro 10, 2008

Um ano de presepadas made in China

Sem dar uma de narcisista, compartilho com vocês mais uma reportagem que saiu no Diario de Pernambuco (9/11/2008) sobre a minha presepada made in China.  O texto é assinado por Cristiane Gentil, do Correio Braziliense.

Depois de um ano, minha vida gira em outro eixo

Depois de um ano, minha vida gira em outro eixo

Comportamento // Vou ali e volto já (ou não!)

Quem nunca pensou em largar o emprego, o namoro, enfim, a rotina? Mesmo temporária, a viagem ao centro de si mesmo é uma aventura transformadora
Cristine Gentil // Correio

 

Em 2004, a arquiteta Cláudia Estrela Porto, 46 anos, tirou uma licença de três meses, juntou com um mês de
A arquiteta Cláudia Estrela passou 100 dias na Índia, com símbolos budistas: “Fui quase ao limite”. Foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press

férias e embarcou numa viagem de 100 dias pela Índia. Na bagagem, pouca roupa, laptop, guias, remédios e algumas certezas, entre elas, a disposição de ficar só, de testar limites e de interagir com pessoas de uma cultura que ama. Em 2007, a jornalista e estudante de administração Ana Addobbati, 26 anos, foi selecionada para um programa de intercâmbio, que a levou de Pernambuco para a China, onde mora hoje. Sua filosofia de vida era conhecer o mundo, quebrar barreiras, vencer preconceitos. Conseguiu: na primeira balada no Oriente, seu círculo de novos amigos passou a incluir vietnamitas, afegãos, uzbeques, indonésios e palestinos.

Cláudia e Ana são parte de um grupo, cada vez maior, de pessoas que decidem interromper a rotina e fazer uma grande viagem – algumas, sem volta. As experiências vividas costumam virar grandes e ricos relatos, como as 344 páginas do livro Comer, rezar, amar, o registro do ano em que a jornalista e escritora americana Elizabeth Gilbert tirou uma espécie de licença sabática para buscar o equilíbrio. Depois de um divórcio conturbado e uma longa depressão, ela passou três meses provando os sabores da mesa na Itália, outros três meditando na Índia e encerrou sua viagem na Indonésia, onde conheceu um brasileiro, hoje seu marido (leia trechos do livro e uma entrevista com a autora na página 6). Mas o que faz a história de Elizabeth ser um retumbante sucesso, a ponto de vender 4 milhões de exemplares – 100 mil só no Brasil, onde permanece há 30 semanas na lista dos livros mais vendidos?

Um tempo na rotina

Para a psicodramatista Solange Mesquita Gomes, especialista em EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing, psicoterapia por meio dos movimentos oculares), o “sair em busca de si mesmo” tem três porquês, que se interpõem e intercalam:

1 O primeiro, ilustrado pelo livro Comer, rezar, amar, é o de afastar demandas e fontes de estresse para que a pessoa possa ouvir a si mesma, cicatrizar a alma e relativizar o próprio mundo, olhando-o distantemente. Quando estamos machucados, precisamos nos concentrar no ferimento para fazer o curativo e para trocá-lo constantemente.

2 O segundo, não menos importante, representado pelo ano sábatico encampado por muitas empresas, é o descanso propriamente dito, que melhora a capacidade criativa, a capacidade laboral, a resiliência. A pessoa que não dedica tempo ao descanso, ao exercício do ócio criativo, ao convívio com a família, amigos e outras pessoas fora do âmbito da empresa tende a perder a capacidade de visualizar os problemas, perde a capacidade de encontrar soluções simples e criativas. A saúde mental depende da variação dos problemas a serem resolvidos e o corpo precisa de exercício e descanso. A mente sadia precisa de estímulos diversificados para encontrar novos caminhos.

3 O terceiro é a realização de desejos que não puderam ser contemplados ao longo do tempo em que o indivíduo lutava para conquistar seu lugar no mundo (vestibular, concurso, pós-graduação, mercado de trabalho, busca do parceiro afetivo), por exemplo, conhecer o mundo a que pertencemos. Na maioria das vezes, sucumbimos à rotina que nos impele a deixar nossos sonhos em segundo plano em busca da sobrevivência financeira. A sociedade cria necessidades para os indivíduos obrigando-os a dedicar mais tempo ao trabalho e menos tempo ao lazer, à família. Trabalhamos até 15 horas por dia para suprir necessidades de consumo que, muitas vezes, não são indispensáveis.

“Em 2006, trabalhava como repórter, mas havia retomado meu curso de administração. Decidi fazer o curso por achar que todos devem ter noção de como administrar a carreira, a vida, sem falar que venho de uma família de empreendedores. Depois de um ano, recebi um e-mail de um amigo que acabara de voltar do México, informando que o programa de intercâmbio que ele participava havia aberto seleção para China, Índia e Venezuela. O prazo de inscrições acabava em meia hora! Inscrevi-me e fui selecionada. E aí, para que país iria? Bem, Olimpíadas, a chance de aprender a língua do futuro e conhecer de perto o país que estava mudando a ordem econômica do mundo e que ainda esconde tantos mistérios: China. Cheguei em outubro de 2007, em Wuhan, interior da China, sozinha, sem falar um “oi!” em chinês para trabalhar num hotel. Passei por poucas e boas. O eixo do mundo mudou. Eu fazia parte dos 10% dos estrangeiros na cidade. Meu círculo de amigos passou a ser formado por indianos, árabes, uzbeques, cazaques, indonésios, vietnamitas. Depois do contrato de seis meses no hotel, mudei-me para Xangai e hoje estou estudando chinês e trabalhando em projetos de países ocidentais na China. Não sei se volto. Só sei que não me arrependo. Não posso dizer que 100% do tempo tudo foram rosas. Mas, as coisas que vivi aqui mudaram meus horizontes, minha forma de pensar. De repente, parece que o mundo ficou pequenininho. Arriscar é algo que sugiro a todos que tenham a coragem de se abrir para o diferente”.

Ana Addobbati, 26 anos

Leia mais em: http://www.diariodepernambuco.com.br/2008/11/09/diariorevista1_0.asp