Sem dar uma de narcisista, compartilho com vocês mais uma reportagem que saiu no Diario de Pernambuco (9/11/2008) sobre a minha presepada made in China. O texto é assinado por Cristiane Gentil, do Correio Braziliense.

Depois de um ano, minha vida gira em outro eixo
Comportamento // Vou ali e volto já (ou não!)
Quem nunca pensou em largar o emprego, o namoro, enfim, a rotina? Mesmo temporária, a viagem ao centro de si mesmo é uma aventura transformadora
Cristine Gentil // Correio
Em 2004, a arquiteta Cláudia Estrela Porto, 46 anos, tirou uma licença de três meses, juntou com um mês de
| A arquiteta Cláudia Estrela passou 100 dias na Índia, com símbolos budistas: “Fui quase ao limite”. Foto: Edilson Rodrigues/CB/D.A Press |
férias e embarcou numa viagem de 100 dias pela Índia. Na bagagem, pouca roupa, laptop, guias, remédios e algumas certezas, entre elas, a disposição de ficar só, de testar limites e de interagir com pessoas de uma cultura que ama. Em 2007, a jornalista e estudante de administração Ana Addobbati, 26 anos, foi selecionada para um programa de intercâmbio, que a levou de Pernambuco para a China, onde mora hoje. Sua filosofia de vida era conhecer o mundo, quebrar barreiras, vencer preconceitos. Conseguiu: na primeira balada no Oriente, seu círculo de novos amigos passou a incluir vietnamitas, afegãos, uzbeques, indonésios e palestinos.
Cláudia e Ana são parte de um grupo, cada vez maior, de pessoas que decidem interromper a rotina e fazer uma grande viagem – algumas, sem volta. As experiências vividas costumam virar grandes e ricos relatos, como as 344 páginas do livro Comer, rezar, amar, o registro do ano em que a jornalista e escritora americana Elizabeth Gilbert tirou uma espécie de licença sabática para buscar o equilíbrio. Depois de um divórcio conturbado e uma longa depressão, ela passou três meses provando os sabores da mesa na Itália, outros três meditando na Índia e encerrou sua viagem na Indonésia, onde conheceu um brasileiro, hoje seu marido (leia trechos do livro e uma entrevista com a autora na página 6). Mas o que faz a história de Elizabeth ser um retumbante sucesso, a ponto de vender 4 milhões de exemplares – 100 mil só no Brasil, onde permanece há 30 semanas na lista dos livros mais vendidos?
Um tempo na rotina
Para a psicodramatista Solange Mesquita Gomes, especialista em EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing, psicoterapia por meio dos movimentos oculares), o “sair em busca de si mesmo” tem três porquês, que se interpõem e intercalam:
1 O primeiro, ilustrado pelo livro Comer, rezar, amar, é o de afastar demandas e fontes de estresse para que a pessoa possa ouvir a si mesma, cicatrizar a alma e relativizar o próprio mundo, olhando-o distantemente. Quando estamos machucados, precisamos nos concentrar no ferimento para fazer o curativo e para trocá-lo constantemente.
2 O segundo, não menos importante, representado pelo ano sábatico encampado por muitas empresas, é o descanso propriamente dito, que melhora a capacidade criativa, a capacidade laboral, a resiliência. A pessoa que não dedica tempo ao descanso, ao exercício do ócio criativo, ao convívio com a família, amigos e outras pessoas fora do âmbito da empresa tende a perder a capacidade de visualizar os problemas, perde a capacidade de encontrar soluções simples e criativas. A saúde mental depende da variação dos problemas a serem resolvidos e o corpo precisa de exercício e descanso. A mente sadia precisa de estímulos diversificados para encontrar novos caminhos.
3 O terceiro é a realização de desejos que não puderam ser contemplados ao longo do tempo em que o indivíduo lutava para conquistar seu lugar no mundo (vestibular, concurso, pós-graduação, mercado de trabalho, busca do parceiro afetivo), por exemplo, conhecer o mundo a que pertencemos. Na maioria das vezes, sucumbimos à rotina que nos impele a deixar nossos sonhos em segundo plano em busca da sobrevivência financeira. A sociedade cria necessidades para os indivíduos obrigando-os a dedicar mais tempo ao trabalho e menos tempo ao lazer, à família. Trabalhamos até 15 horas por dia para suprir necessidades de consumo que, muitas vezes, não são indispensáveis.
“Em 2006, trabalhava como repórter, mas havia retomado meu curso de administração. Decidi fazer o curso por achar que todos devem ter noção de como administrar a carreira, a vida, sem falar que venho de uma família de empreendedores. Depois de um ano, recebi um e-mail de um amigo que acabara de voltar do México, informando que o programa de intercâmbio que ele participava havia aberto seleção para China, Índia e Venezuela. O prazo de inscrições acabava em meia hora! Inscrevi-me e fui selecionada. E aí, para que país iria? Bem, Olimpíadas, a chance de aprender a língua do futuro e conhecer de perto o país que estava mudando a ordem econômica do mundo e que ainda esconde tantos mistérios: China. Cheguei em outubro de 2007, em Wuhan, interior da China, sozinha, sem falar um “oi!” em chinês para trabalhar num hotel. Passei por poucas e boas. O eixo do mundo mudou. Eu fazia parte dos 10% dos estrangeiros na cidade. Meu círculo de amigos passou a ser formado por indianos, árabes, uzbeques, cazaques, indonésios, vietnamitas. Depois do contrato de seis meses no hotel, mudei-me para Xangai e hoje estou estudando chinês e trabalhando em projetos de países ocidentais na China. Não sei se volto. Só sei que não me arrependo. Não posso dizer que 100% do tempo tudo foram rosas. Mas, as coisas que vivi aqui mudaram meus horizontes, minha forma de pensar. De repente, parece que o mundo ficou pequenininho. Arriscar é algo que sugiro a todos que tenham a coragem de se abrir para o diferente”.
Ana Addobbati, 26 anos
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