A abertura e o dia em que Phelps se enroscou na bandeira

E então chegaria o dia da Abertura da Olimpíada Rio 2016. Reuniões de registro das delegações encerradas em sua maioria. Atletas acomodados na vila – ainda em crise. E aquele frio na barriga. Apesar de estarmos na Vila, nosso time tinha uma função crucial para que tudo desse certo. Da Logística ao Protocolo estávamos envolvidos. Antes, os bastidores.

Não, a Vila ainda não estava perfeita e tinindo. Antes da Cerimônia, ainda estávamos correndo para fazer os apartamentos ficarem minimamente habitáveis. O time de gestão da crise colocou membros do time de Relações com os Comitês Paralímpicos dentro de cada condomínio e escalou gente do time de Credenciamento e de Entradas Esportivas (responsáveis por a checar as qualificações junto a Federações e Rankings). Esse pessoal era os olhos dos nossos líderes e literalmente colocava a mão na massa. Por exemplo, foi quem descobriu câmeras desligadas, instalou canos, chamou pedreiro para consertar parede.

Nesse meio, havia voluntários que conheciam o time da Odebrecht e eram verdadeiros anjos. Dentre os meus clientes, agradeço todos os dias a um ex executivo da Xérox que se voluntariou. Ele estava alocado no Chile, mas pediu para cuidar da Índia, já que havia morado lá. Além de conhecer a cultura, ser homem e mais velho, ainda era Engenheiro de formação. Caiu como uma luva para estar no prédio chamado de favela. Era quem comandava os empregados e terceirizados para colocar a ordem no quarto do chefe de missão indiano. Enquanto isso, as meninas do time de Relações com os Comitês Paralímpicos tentavam criar o mínimo de governança em interface com as áreas do Rio 2016.  Para a gente entender que nesses Jogos, todo mundo fez a diferença ou evitou que o pior acontecesse.

As reuniões de crise continuavam acontecendo. Aos poucos, as reclamações de casos mais graves iam rareando. Amém. Ao ponto de ter momentos engraçados.

SMS do gerente americano:

– Índia reclama que as geladeiras do prédio deles estavam sem Coca-cola. Os atletas foram pegar refrigerante no prédio do Brasil (que era vizinho) e foram barrados. Vai lá e resolve.

Pausa para explicar que o prédio do Brasil estava lindo, organizado, com um time de prontidão para cuidar dos atletas como tinha de ser.

Cheguei para falar com a pessoa que parecia ser a responsável pelo receptivo e recreação.

– Moça, eles foram barrados porque foram pegar guaraná na nossa geladeira patrocinada na beira da piscina. Não foi na geladeira do térreo fornecida pelo Rio 2016.

Ah, malandro! Beber refri gelado na beira da piscina eu também quero.

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As reuniões de crise deram espaço para as reuniões de briefing da Cerimônia. A que horas e onde cada delegação deveria se posicionar. Voluntários e nossa equipe os guiariam com uma placa com o nome de cada delegação até mais de 100 ônibus com ar condicionado, condições de acessibilidade e escoltados pela Força Nacional até o Maracanã.

Na volta, haverá saídas mais cedo para atletas que queiram somente desfilar e não ficar para a festa.

Ao contrário de Londres, o Maracanã fica a 50 minutos da Vila usando a Pista Olímpica, exclusiva para os veículos do Rio 2016. Ou seja, comam antes. Terá lanchinho. Mas bem “lanchinho” mesmo.

Parece fácil, né?

Por trás de tudo isso, houve um estudo minucioso e planejado para que não houvesse atrasos. A gente sabe como o Brasil é elástico para horário. Só que a transmissão mundial da Abertura não atrasaria um segundo. 20:00 em ponto.

A líder do projeto era uma grega que já tinha feito sei lá quantos jogos. Viciada nessa parada. Ela montou um esquema de guerra, com mapas, projeções e montou um time com rádios, códigos para ficar na Vila organizando os grupos, embarcando e passando as coordenadas para o time do Maracanã. Tal delegação não pode cruzar com aquela. Muda de ônibus, mas tem que dar um jeito de desembarcar na ordem certa.

Tentaram fazer uma simulação. Adivinha? Faltou luz. Então, até nisso, foi com emoção. A Logística Vila- Maracanã saiu como teoria, sem chance de prática.

Eu fiquei no time que ia organizar a parada dos atletas no Maracanã. Tivemos a chance de reconhecer o local e nossas funções alguns dias antes. E tivemos a chance de ver trechos da abertura. Pulamos como loucos na arquibancada. Só pensava: se não atrasar, se não faltar luz, vai ser lindo. E foi, né? Amém!

No dia mesmo, foi montado um bunker dentro do Maracanã. A grega munida de rádio para se comunicar conosco, sentada ao lado do líder da Força Nacional, Transportes e demais áreas envolvidas. Lembrem que não conhecemos todo mundo que ali trabalhava. Sabíamos que os de vermelho eram da área Médica, os de verde quem estava ligado à operação do Maracanã e havia os outros zilhares de amarelinhos. E dar ordem à gente que você nunca viu exige tato e muita segurança de que sabe o que está acontecendo. Para isso, milhares de reuniões com mapas, simulações de crise. Sem chance de aprender com a mão na massa.

Nos codinomes de guerra, eu era Atleta 6. Fui realocada de última hora para ficar apoiando a chegada dos atletas. Minha função era ser os olhos da rua (Teve protesto Fora Temer rapidamente abafado pela cavalaria) e acelerar o desembarque dos atletas com muito jeitinho. Até porque teve atraso. Nada que ninguém notasse. Mas bem lembrado pelo Chefe de Missão de Singapura (uma celebridade do mundo esportivo asiático com milhares de seguidores. Uma foto nossa teve para lá de Ks de likes): Ana, we are late! Sorry, Mr. Low. Mas a gente vai dar um jeito. E deu.

Os últimos foram os Brasileiros, seguindo logicamente a ordem do desfile. E aí eles tiveram que compensar o atrasinho. Beleza, “tamo em casa”. Eu tive que tanger a turma com muito jeitinho para dentro. Gente, festa lá dentro. Entrem, pelo Amor de Zeus (ou a Grega me mata aqui no rádio).

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Time Brasil: Pelo amor, festa lá dentro do Maracanã.

Antes de seguir, mais um fato dos bastidores: a delegação de Israel, ao descer do ônibus, foi saudada como “Coxinha, coxinha” pelos moradores de um dos prédios. E os coitados achando que estavam sendo celebrados. Faltou espírito olímpico.😦

Bem, todos os atletas dentro do Maracanã. Antes, o time que ficou lá dentro deu um jeito de sacar quem eram os melhores integrantes da Força Nacional para pedir cooperação. Havia pontos de contato com o público e a danação dos voluntários, funcionários pedindo pins. Esse lance foi desvirtuado no Brasil. Por tradição, o atleta dá um pin em agradecimento por serviços que o voluntário faz. Aqui, virou uma caça aos pins que me envergonhou até o fim. Falta de educação, malandragem, seja o que for. Vergonha alheia. Teve até policial pedindo.

Rádio da Grega: Atleta 6, Protocolo precisa de ajuda.

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Olha aí o flagra nesta blogueira atuando no Protocolo do Desfile da Abertura da Olimpíada. Sem dúvida inesquecível❤

É aí a parte mais legal. Leia-se entregar as bandeiras aos porta-bandeiras de cada delegação. Leia-se ficar juntinho com a simpatia do Nadal. Leia-se ficar enroscada na bandeira com o Phelps.

Sim, eu me enrosquei na bandeira com o Phelps. Explico.

A minha função era puxar os porta-bandeiras do meio da delegação, dar a bandeira e garantir que eles iam entrar arrumadinhos dentro do Maracanã na posição certa.

Eis que a delegação do Tio Sam não deixava o coitado do Phelps passar. Literalmente passavam como uma manada de bois e o coitado ficando para trás.

– Phelps, please, vem para a frente.

– I am trying.

Me meto no meio dos atletas para ajudar o coitado. A manada continua passando. E nessa, a gente se enrosca na bandeira e ele cai por cima de mim.

Bem, não é todo dia que um campeão olímpico tem esse grau de intimidade comigo. Mas no final, deu certo. Phelps para a galera, lá na frente já para avisar que iria turbinar o medalheiro do USA com tantas medalhas.

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Phelps: campeão, simpático e que, mesmo enrolado na bandeira, não perdeu a esportiva

E, sim, antes que me perguntem: O besuntado de óleo de Tonga é aquilo tudo.

Bem, eu só posso descrever que os atletas ficam em êxtase. Que foi lindo vê-los em roupas tradicionais, em paz e curtindo aquele momento.

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O porta-bandeira de Tonga é isso tudo que apareceu na TV

A maior lição dessa abertura que foi o divisor de águas foi ver que quando a escolha é por excelência não tem como errar. Nós tivemos nomes como Deborah Colker, Fernando Meireles, Andrucha Waddington. Um orçamento de um terço do que foi gasto em Beijing. Ou seja, grana curta não é desculpa. Escolhas erradas – empregar o filho do deputado, o amigo da esposa – é o que explica as falhas e o que nos mata de vergonha.

Ainda consegui assistir ao final da Cerimônia. Fui dormir às 4 da manhã para estar pronta para trabalhar às 6h com febre e sem voz. Mas valeu a pena.

Pelo fim do complexo de cachorro vira-lata!

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A crise nos dias seguintes

Não teve prefeito Eduardo Paes, não teve promessa de canguru que fizessem os ânimos na Vila se acalmarem. Sabiamente, a liderança do time agendou reuniões de crise. Descrevendo de forma bem concreta: típicas reuniões de condomínio para lavar roupa suja. Foi a melhor decisão a se tomar. Em vez de tratar os problemas de cada delegação como pontuais, sentar e admitir que a crise estava generalizada. Daí tudo ganha novas proporções e as pessoas passam a elencar prioridades. Além de ser a grande chance de usar a ferramenta da empatia, sem dizer nenhuma mentira. Nós estamos aqui para te escutar, nenhum problema é pequeno, mas temos recursos limitados. Vamos combinar o jogo?

Antes uma pergunta: Você faria o mesmo que a Chefe de Missão da Austrália? Reclamaria para a imprensa? Ou deixaria alguém ser boi de piranha e barganharia “a parceria do silêncio” em troca o Comitê correria para resolver os problemas da sua delegação?

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Os asiáticos são um caso à parte – com exceção de Singapura (agora com S a pedidos do governo) e da Índia – foi preciso a coisa ficar muito feia para que eles viessem reclamar. Eles são auto-suficientes e não gostam de reclamar. Mas aí é onde mora o perigo. Quando a coisa dá errado, já deu muito errado. É preciso ficar atento ao silêncio. Inclusive quando esse silêncio não quer dizer nada. E-mails sem resposta às vezes é apenas porque eles não tem resposta nenhuma a dizer.

Já Singapura foi claro e direto ao ponto, como os asiáticos mais ocidentalizados que conheço – Minhas prioridades são X por questões de segurança. Água gelada não é problema algum diante do escapamento de gás.

Enquanto isso a Índia colocava a boca no trombone em todas as reuniões. Inclusive para reclamar do que não havia direito a reclamar. Explico-me: Há um ano dos Jogos, publicamos o Dossiê dos Chefes de Missão em que trazíamos detalhes das operações. Quais os carros, quais os serviços, horários, planta da Vila. Ao longo desse ano, o Dossiê foi sendo atualizado até virar o Manual dos Chefes de Missão – em que os detalhes finais dos serviços oferecidos estariam confirmados. Esse material foi distribuído a todas as delegações para que elas se preparassem a tempo e mitigassem ou solucionassem qualquer impacto de um nível de serviço que julgassem insatisfatório às suas necessidades. Acontece que alguns não leem. E aí passam vergonha reclamando do que não se tem direito.

Uma boa lição para mim que adoro aprender as coisas com as mãos no trabalho. Se alguém se deu o trabalho de reunir todas as informações é porque deve ser importante. Manual é para ser lido. Não é mesmo?

E também foi um exercício bem interessante para pressionar as áreas funcionais do Comitê para definir pendências. Já que a descrição do serviço precisava estar escrita e impressa, eles precisam pensar e bater o martelo sem deixar para o último minuto. E aí teve gente que estrilou porque estava acostumado ao velho jeitinho no último minuto, teve gente que ignorou por não ver valor nesse material e teve gente que achou isso uma ótima oportunidade para aprender a atuar com planejamento.

Cada um faz dos limões a limonada que prefere.

E se tem um legado intangível que fica dos Jogos é exatamente o aprendizado com o choque de culturas entre “o último minuto” e o “bem pensado”. Mas isso é assunto para um outro post. Bom domingo!

 

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A Vila – o começo, o caos, a crise

Bem, como era de se esperar, não tive tempo de atualizar meu blog, como gostaria muito. Foi punk. O período mais intenso de trabalho na minha vida, coroando o que já vinham sendo os dois anos mais corridos da carreira.

Aprendi e vi tanta coisa, que está dando vontade de escrever. Até para entender a magnitude do que vivi.

Como já havia comentado antes, pressão é um elemento presente e preponderante nesse desafio que é entregar o maior evento do mundo. Mas a situação ativa aqueles conhecimentos que você usa e nem imagina que rima com esporte: negociação, empatia, convencimento, rapport.

 

Nos 60 dias que vivi na Vila, testemunhei o melhor e o pior do Brasil. Senti o peso – e as consequências – da cultura do “último minuto”. Também vi que planejamento evita que o pior aconteça, mas que ser criativo quando as coisas saem do controle apaga muito incêndio.

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Sim, teve crise na Vila. É leviano apontar culpados. O fato é que a água, o gás e a eletricidade foram liberados faltando 10 dias para a chegada do primeiro atleta. Por consequência, o teste de stress no encanamento foi feito pelo hóspede. Se poderia ser evitado por uma força-tarefa? Talvez.  O fato é que aqui reside uma lição: Em qualquer projeto em um país que não seja o seu, leve alguém local de confiança e escute. As coisas podem ser bem diferentes do que você está acostumado.

A crise estourou enquanto eu estava presa em uma sala de reunião com as minhas delegações. Na famigerada DRM – Delegation Registration Meeting – somos responsáveis – juntamente com o time de Credenciamento e Entradas Esportivas – em checar se estão entrando na Vila os atletas devidamente qualificados e se, por consequência, os credenciados estão dentro da cota permitida. Em decorrência do tamanho da delegação, sabe-se a que as delegações tem direito: carro, van, tamanho do escritório, quantos quartos, etc.

Algumas reuniões duraram até 9 horas. Caso da Índia. Tivemos que literalmente seguir com várias discussões até que o responsável lá da Ásia acordasse para definir uma questão.

No meu caso, havia ainda um fator que complicava o cenário. Com a quantidade restrita de voos vindo da Ásia para o Rio de Janeiro, as delegações começaram a chegar juntas. Dormiam no sofá esperando a DRM terminar para que a sua começasse.

 

Isso me deixou isolada de algumas das confusões, mas também de mãos atadas para resolver qualquer problema. Quando me libertei dessa rotina, vi as minhas delegações enfrentarem problemas desde falta de água quente a gás vazando. Senta e negocia quais as prioridades. Nesse cenário, havia delegações – como a Austrália – em situações bem piores. É a hora que o relacionamento funciona. Como estava há dois anos no Comitê, sabia exatamente quem resolvia o quê. E usava do meu bom relacionamento com essas pessoas. No caos, não tem processo. Tem gente que resolve. Mãos à obra.

E assim foram os meus primeiros dias. A Índia, top 50 nas Olimpíadas, estava no prédio conhecido como “Favela”. É a hora que você dá todos os jeitinhos no mundo para deixar o Chef de Missão feliz, porque o carinha tinha razão de reclamar.

Já estava insatisfeito com a localização do prédio – no último condomínio, ao lado do prédio do Brasil. Ter encontrado o escritório cheio de poeira e aos pedaços …

Mas aqui reside um aprendizado. A Índia com uma das delegações maiores nunca tinha visitado a Vila. Não entendia da disposição dos prédios, da localização do Refeitório, Academia. Delegações bem menores vinham visitando o Brasil e as instalações olímpicas desde 2013. Sabiam exatamente o que pedir, o que trazer. Haviam visitado os restaurantes. Entendiam que o Rio oferecia opções restritas de comida asiática. Obviamente que isso impactaria na alimentação dos atletas, ainda mais numa situação de cortes financeiros. Resultado? A maioria montou cozinhas em apartamentos localizados nas redondezas. Trouxeram seus temperos.

É claro que os indianos começaram a usar esse mau trato como moeda de troca. Para abrir uma exceção aqui e aceitar pedidos fora do prazo. Um passe extra para visitar a Vila. Mas aí é quando a gente tem que colocar um ponto final, usar o bom senso. Negociação. Nunca fui tão feliz em ter feito dois cursos na área. Recomendo a todos a estudar a metodologia Harvard. É uma receita de bolo. Você entende quem joga, como joga e por quem joga.

 

O texto já está bem longo. Tenho certeza que começarei a lembrar dos pedaços do quebra-cabeça. Nos próximos dias, tentarei contar mais sobre o dia-a-dia, lições de liderança, curiosidade. Tem pergunta? Manda aqui. Se der, respondo.

 

Até mais!

 

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Meu legado de mobilidade dos Jogos: me libertar do egoísmo de andar sozinha de carro

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Carona solidária é up-to-date, sustentável e tendência

 

É, vou mudar de endereço pela 10ª vez nos últimos 9 anos! Os jogos se aproximam e a minha mala de roupas (se é que eu vou usar algo além de uniforme e pijama) já está acomodada no meu quarto na Vila Olímpica. Vai toda a equipe morar junta por mais de 30 dias. Além de conviver no escritório por infindáveis horas de trabalho. Vamos ver no que isso vai dar. Intenso vai ser. Na hora do stress, respira fundo e não estoura na primeira pessoa que aparecer na minha frente.

Então, pelo motivo acima, foi o último dia de carona solidária. Nos últimos 20 dias, quando o escritório saiu da Cidade Nova, Centro, para a Barra, todo mundo tratou de se organizar para chegar aqui de carro. E foi algo novo e interessante.

Novo porque a maior parte da minha vida fiz de carro, esse hábito nada sustentável. Desde que me mudei para o Rio, decidi deixar o automóvel no Recife e usar transporte público. No começo, primeiro verão 40º no Rio, foi difícil. Andava com uma camisa extra na bolsa e trocava no trabalho. Depois, foi muito legal usar o tempo para ver a paisagem, encontrar amigos no mesmo ônibus ou vagão do metrô, ler, rezar.

Com a complexidade da ida para a Barra, experimentei a tal da carona solidária. Confesso que pensei: Não ter flexibilidade vai ser um saco! Sim, acordei mais cedo para não ter risco de perder a carona. Mas tratei de ver o lado bom. Eu tinha de ficar na minha esquina para esperar a chegada de Ms. Luana Carioca Gente Boa. Aproveitava lia ou tomava um café no bar da esquina. Em seguida, era entrar no carro dormir ou cantar ao som de La Bicicleta. Na volta, a mesma coisa.

E no fim disso tudo, somente uma conclusão: a carona solidária, além de ser mais legal e econômico, é acima de tudo mais sustentável. Menos mimimi, menos carbono no planeta e mais alegria.

 

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A blogueira versão Olímpica #rio2016

Esse blog aqui já foi mais animado, eu sei. Tanta coisa já aconteceu e ele não ressuscitou. Mas a pedidos de um pai, a autora aqui vai travar a tarefa hercúlea de tentar atualizá-lo em meio a sua primeira Olimpíada – em que atua do lado de dentro. Com a mão na massa.

Não prometo textões. Mas impressões, fotos, alegrias, tristezas. Eu comecei esse blog lá atrás citando Gabo. “Na solidão, até os tubarões são seus amigos”. Os meus próximos dias não serão de solidão, mas de pressa, busca, energia, cansaço e muitos sentimentos.

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A tocha Olímpica – cheia de curvas, linda por natureza

 

Para quem não está se situando ainda: Estou a uma semana de receber os primeiros atletas que pisarão na Vila Olímpica. Sou coordenadora de Relações com os Comitês Olímpicos Asiáticos desde 2014 no Comitê Organizados das Olimpíadas e Paralimpíadas Rio 2016. Sob minha responsabilidade: Índia, Bangladesh, Maldivas, Cambodia, Laos, Singapura (Com S mesmo, a pedidos das autoridades), Taipei, Hong Kong, Filipinas, Tailândia, Malásia, Myanmar, Sri Lanka, Vietnam. De volta à Ásia. Yes!

Participar do maior evento do mundo é sobretudo aprender a se conhecer quando se trabalha com um gatilho contra a cabeça. A pressão é sua companheira diária. A gente acha que dá conta, às vezes, acha que não. E nisso vem todas aquelas questões: Vivo o hoje? Vivo o depois? E a fé de que fazendo seu sempre vem o retorno? O que faço depois? O que vem em seguida?

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Representantes dos Comitês Olímpicos Asiáticos em encontro em Jakarta, Indonésia. De volta ao carinho desse povo que eu amo tanto. #asia #weloveasia

 

Não tem KPI de performance. Não tem plano de carreira. O mérito vem através da capacidade de tirar as coisas do papel. É a primeira vez que trabalho num projeto de visibilidade mundial e com certo grau de controvérsia. Haja emoção!

Lembrando da minha época na China, em que as Olimpíadas de Beijing vieram abraçadas pelo povo, num governo controverso, mas que tinha o controle da situação.

Leia mais aqui sobre a minha experiência nas Olimpiadas de Beijing Continuar lendo

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As medidas – e posts – do que somos

E, hoje,  me assustei com uma coisa do Facebook.  Ele faz certas coisas serem bem corriqueiras diante da superexposição que temos a fatos cotidianos compartilhados, certo? Então, sabemos o que tornam as pessoas felizes: os quilos perdidos, as viagens, o carro novo, o namoro, o look que aprendeu a fazer. Tudo certo. Compartilhar felicidade é ótimo. Triste é quando me chama a atenção o celebrar de uma felicidade que era para ser algo super exposto e generalizado. Me emocionei com o post da super blogueira, que adoro de <3, Teta Barbosa, sobre a conquista do filho no vestibular de Engenharia. Aí, fiquei pensando quantas vezes vi no facebook esse tipo de celebração x o fútil, o consumo, a ostentação.

Não que a vida tenha de ser só seriedade. Apenas me assustam as medidas. Espero que alguém me mostre estatísticas contrárias.

E pensar que, em 1960, Coreia do Sul e Brasil tinham o mesmo índice de analfabetismo. Vivi 30 dias em Seul e amei o lugar – tecnológico e seguro que só. Ano passado, voltei a trabalho. E sempre fico mais apaixonada. Até porque os coreanos são leves, doces, mesmo com tanta pressão por suceder nos estudos (Ok, meu recorte é de quem anda nas ruas e compara com a China e outros países asiáticos). Sei que devem pipocar aqui contra-argumentos, apontando depressão, stress, etc. por conta da grande quantidade de horas de estudo a que os jovens coreanos são submetidos. Aí, é mais uma questão de calibrar a balança, não acham?

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Em Seul, estava em um grupo de estrangeiros familiarizados com o nosso país e de posse da informação que Brasil e Coreia do Sul já estiveram nos mesmos maus lençóis com a Educação. Várias razões apontadas para tamanha discrepância entre ambos: cultura, religião, disciplina, etc.

Voltei para casa com o dever de casa de pesquisar. Achei vários artigos. Em um deles, o autor apontava que, no pós-guerra, os líderes que assumiram as rédeas pensavam em planejamento e versavam sobre sacrifício. A conta era simples: essa geração teria que se sacrificar em trabalho para a próxima ter uma base sólida de estudo e formação.  Os investimentos maciços serão em Educação fundamental e haverá o Ministério do Futuro para criar o alicerce da sociedade coreana do futuro.

Aqui estão. Coreanos e o seu País. Conectado, moderno, produtivo. Mais justo. E eu assustada que a celebração tão linda de um filho que passa no vestibular tenha me chamado tanta a atenção.  Era para ser corriqueiro. Era para ser foco.

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E quando você estiver lendo, pense: o Brasil é o que você para os seus e para os outros. Cabe a você, pai, também querer que seu filho seja da Educação e não, do consumo. Sem eximir governantes de sua função. Mas, saibam que, em tempo de Facebook, os cérebros maquiavélicos estão nos acompanhando e vendo o que cada um “celebra” em sua timeline. E aí, vai de consumo de Tv de plasma ou na nota 10 do seu filho ou na melhoria do Ideb da sua cidade? A escolha é sua.

Ah! E nem venham dizer que no Brasil não dá certo. Eu mesma não posso dizer isso. Sou neta de um paraibano sertanejo, que estudou até os 12 anos, e que, com a melhoria de vida, decretou na minha casa: prioridade máxima é estudar. E nem venha filho, neto escolher folia em detrimento de estudo. Nunca. E acho que lá em casa a fórmula vem dando certo. Deu, no final, para fazer bem os dois.

Além disso, olha esse vídeo aqui. Lá no Capão, na Bahia, a turma do Instituto Chapada conseguiu levantar o IDEB da região – que já foi um dos piores do País – a se equiparar com São Paulo. E, dentre dos princípios do projeto: participação dos pais na vida escolar do filho.  Quando é a próxima reunião de Pais e Filhos da escola?

Boa semana a todos!

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Quando Gil vale mais que dois olhos azuis

É, gente, esse blog andou meio abandonado. Negligenciado mesmo. A pedidos, resolvi “tentar” voltar a atualizá-lo com frequência – alguma que seja. Antes de qualquer coisa, é preciso voltar a origem da comichão por escrever. Era 2007, a China desconhecida, Olimpíadas por vir. Minha segunda vida internacional. Sonho de infância de aprender uma língua oriental. Dubai no meio. Volta ao Brasil, mas os passeios continuaram pela longínqua Ásia e a logo ali Europa.

Eis que a vida caminhou e se desenvolveu por uma descoberta tupiniquim, que representou uma descoberta em mim mesma. A vida na Bahia e mudar a bússola do além-mar para o aqui dentro doeu, esvaziou e preencheu. Explico: admitir que desconhecemos tanto o País em que nascemos e vivemos é um exercício doloroso. Esvazia, porque é preciso reconhecer com humildade que de nada sabemos, que temos visões distorcidas e errôneas de muita coisa. E preenche porque passamos a nos conhecer. Ter o vizinho como parâmetro é muito mais fidedigno do que buscar exemplos de longe. Ou até mesmo “sob o olhar turístico”. Que assim seja. E foi. Que conhecer o Brasil me ajudasse a me conhecer, a entender minhas ações, revisitar algumas coisas e autoafirmar outras.

Setembro de 2012. O CEP virou Salvador, Bahia. A capital nordestina que se resumia a mim: férias com os pais no Club Med, axé que invadiu meu carnaval e um lugar que ficava a uma hora do Recife. Ponto. Arrogância idiota. E o objetivo: dois anos para ir a SP. Arrogância duas vezes idiota.

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Posso falar da Bahia? Porque sorria. Ela é muito mais que o carnaval. Ela é bem resolvida. Se basta. Em si. Problema? Quem tem é você com ela. Ela está nem aí.

E se abrir para esse modus operandi é te jogar contra teu espelho e questionar onde você está. E assim, Gilberto Gil substituiu Chico Buarque no meu coração.

Em “Viramundo” – documentário em que o nosso ex-ministro da Cultura viaja pelo mundo em busca do sentido do que é “pertencimento”, tudo termina na Bahia. Começa com os índios da Amazônia tentando ser reconhecidos pelo idioma e tudo que são, os aborígines da Austrália, os negros que sentiram e ainda sentem no arpatheid da África do Sul. E depois de buscas e explicações, tudo termina na Bahia, numa indicação do que seria o caminho da paz e da aceitação. Como não <3?

olodum  Pelourinho

Na Bahia, bonito é ter cabelo. E cabelo é black, grande e enfeitado. Porque a gente mostra o que é mais lindo. Bumbum lindo é o da baiana. Quanto maior, melhor. Assim seja. Porque somos latinas, descendentes de africanos e é tudo gente grande. Roupa tem que ser colorida, tribal e sim, é preciso dizer: “sou 100% negão”. A missa é customizada: toca tambor, tem dança, batuque, porque não é pecado assumir a sua cultura e deixa-la contaminar tudo que é possível. Até porque a negritude é tão viva que no Curuzu – aquele mesmo da ladeira da música de Daniela Mercury – ainda se fala orubá, a língua nativa dos escravos que foram trazidos para lá. E tudo salvaguardado pelo Vovô do Ilê Ayê, ancião que guarda as tradições e ensina às gerações seguintes a história dos antepassados. #SónaBahia. Que vergonha, Brasil, não saber disso!

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O baiano é o povo mais slash/slash que conheço. Pura tendência. Ninguém é só uma coisa. Todo mundo é advogado, mas também surfa. É professora, mas também toca bateria numa banda. Ai,❤! Também permitem viver a fé que quer. Levam a sério. E como é lindo devotar energia e tempo para viver o etéreo. Isso não é para os fracos. Assim como ver a fila imensa para tomar axé das baianas na Festa de Iemanjá, observar a entrega das oferendas no mar e escutar a oração “Que as tristezas vão embora e a alegria volte com as ondas do mar”.

Lembrancinha no Dia de São Cosme e Damião. Caruru o dia inteiro e muito sincretismo

Lembrancinha no Dia de São Cosme e Damião. Caruru o dia inteiro e muito sincretismo

Povo toma conta do Rio Vermelho para entregar as oferendas no dia 2 de Fevereiro

Povo toma conta do Rio Vermelho para entregar as oferendas no dia 2 de Fevereiro

É, Bahia, isso mexe com milhares de demônios. De quem estica o cabelo. De quem faz lipoaspiração para diminuir o quadril. De quem não mergulha no mar porque tem medo. Se você faz tudo isso sem recalque, ok. Agora, se faz para ser “agradador”. Lamento, você só agrada a sua dor. Entendes por que és tão única? Foi lá que, depois de ser expulsa do coral da escola e de o professor de flauta desistir de mim, um “negão black power” conseguiu me ensinar a tocar alguns batuques. Lá no Candeal de Carlinhos Brown. Onde a música pacifica, cura e a violência se foi na hora que a assumiram como vocação natural e passaram a ganhar dinheiro com esse dom. Pertencimento. Aceitação. O❤!

aula de batuque

Foi lá que os meus demônios interiores se acalmaram, depois de uma verdadeira micareta interna. Eu que tinha um road map de ações na minha carreira, com a arrogância de quem achava que sabia onde estaria em x anos, ganhando x $, descobri que a gente não tem domínio de nada, não sabe de nada. A gente reproduz modelos do que é certo para os outros. Vestir-se assim, pesar assado, falar de tal maneira.

A Bahia cutucou todas essas minhas certezas e o mundo veio abaixo. Mas, me tornei maior, sei mais quem sou. Verdadeiramente sou. Não o que os outros esperam ou querem. Agora, eu sinto mais, projeto menos. Ainda sou um trabalho em construção, mas a Bahia montou meu alicerce. Axé,❤! Porque o tempo é rei, sábio. Mas, passar por alguns lugares faz toda a diferença.

altar com fitas

Altar na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Toda proteção que o❤ merece

Especialmente, quando tem Copa no meio, jogo na Fonte Nova e Olodum tocando no final. Quantas aventuras, Bahia. Um mês de cerveja e abará como dieta básica, muitas risadas e sendo chamada de “gringa”. Com direito a abraçar o farol embaixo de chuva. #SónaBahia. Para sempre. Os amigos de lá para sempre. O Rio Vermelho para sempre. O bairro boêmio. Red River never stops. A qualquer hora do dia sentar no Largo do Acarajé da Dinha, tomar cerveja junto com playboy, rastafári, pai de santo, patricinha. Só na Bahia.

Bayana System - som experimental com batucada, discotecagem e tudo que há de mais trendy

Bayana System – som experimental com batucada, discotecagem e tudo que há de mais trendy

Ai, a Copa!

Ai, a Copa!

Quando tem Por-do-sol no Museu de Arte Moderna, ao som de Jazz. #SónaBahia

Pier do Museu de Arte Moderna. Aos sábados, sunset com palmas e muito jazz

Pier do Museu de Arte Moderna. Aos sábados, sunset com palmas e muito jazz

Quando tem show do Bayana System #DaBahiaparaomundo

A Fifa Fun Fest virou meu endereço durante a Copa #positivevibes

A Fifa Fun Fest virou meu endereço durante a Copa #positivevibes

Quando tem praia – sim, na Bahia tudo fecha cedo, porque o baiano é um povo solar. E até eu me rendi a tanto sal – Sim, Salvador tem alta concentração de maresia/salitre. Não estranhe, se ao sair do mar, a sua sobrancelha estará branquinha

Surf, tatuagem e reggae na Praia do Flamengo

Surf, tatuagem e reggae na Praia do Flamengo

No dia de ir embora, um e-mail disparado para todos os contatos do Norte ao Sul. Mensagem de agradecimento e informando que estava indo trabalhar nos Jogos Olímpicos. Mensagem do maior crítico cultural da Bahia e um dos melhores do País, criador do termo axé music: “Ana, Vou sentir saudade de você na Bahia, mas boas vibes sempre hão de acompanhar alguém tão massa como você – alguém não, você, única. Sucesso, e sim, não vamos perder contato”.

Em minutos mais tarde, o retorno de um jornalista do Recife: “Sucesso, Ana. Manda teu contato para apurar assuntos dos Jogos”.

É, eu já fui essa pessoa com pressa. Hoje, eu SOU mais. Sinto mais. Obrigada, Bahia. Com direito ao scrapbook feito pelos amigos mais carinhosos da América Latina, como toda pernambucana exagerada é😉

Mensagem carinhosa no espelho do banheiro na volta das férias #SónaBahia

Mensagem carinhosa no espelho do banheiro na volta das férias #SónaBahia

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